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Mercados municipais devem ser preservados

Há sete mercados em vias de classificação

"O Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar) está a analisar a classificação de sete mercados, sendo o do Bolhão (Porto) e o de Santana (Leiria) aqueles que têm o processo em fase mais adiantada, por já terem sido homologados pela tutela. Para formalizar a classificação, falta apenas a sua publicação em Diário da República.

Os mercados de Santarém, do Bom Sucesso, de Matosinhos, de Barcelos e de Santa Maria da Feira são os outros espaços em vias de classificação, segundo a página do Igespar na Internet. Actualmente, só há dois mercados classificados: o de Ferreira Borges, no Porto, que é imóvel de interesse público desde 1982; e o da Figueira da Foz, imóvel de interesse municipal desde 2004.

Ontem, vários especialistas ouvidos pela Lusa defendiam que os mercados municipais devem ser preservados, mesmo sem comércio. Os grandes estabelecimentos comerciais mudaram as regras do jogo no que toca ao comércio urbano, sendo de antever nos anos futuros diferentes cenários para os mercados municipais."


Mercados municipais devem ser preservados mesmo sem comércio, dizem especialistas

Por Marisa Soares "Os grandes estabelecimentos comerciais mudaram as regras do jogo no que toca ao comércio urbano, sendo de antever nos anos futuros diferentes cenários para os mercados municipais. Por isso, é urgente preservar estes espaços, se não pela sua vertente de comércio, pelo seu "valor patrimonial", defende o investigador sobre comércio urbano João Barreta.

Antecipando o futuro dos mercados municipais nas próximas décadas, João Barreta está a desenvolver um estudo em que traça quatro cenários possíveis para os mercados portugueses, até 2030. O primeiro cenário -Não os matem que eles morrem- passa pela "completa inacção dos actores" ligados aos mercados, o que a médio prazo, defende, "corresponderá a um inevitável desaparecimento" dos mesmos. O segundo cenário para 2030 - Vão-se os anéis, ficam os dedos -corresponde "à percepção, por parte das autarquias", de que estas dispõem de um património de "localização privilegiada" no centro da cidade que "poderão rentabilizar" financeiramente, "pouco se importando de perder aquilo que em tempos terá sido uma das jóias da cidade".

O terceiro cenário avançado por João Barreta, intitulado Não os consegues vencer, junta-te a eles, passa pela "complementaridade" de actividades no espaço do mercado, inclusive pela instalação de uma "média/grande superfície" no mercado. Por último, o Via Barcelona corresponde ao "cenário ideal", porque esta cidade catalã é reconhecida como um exemplo ímpar na gestão de mercados municipais.

Ainda que nem todos os mercados tradicionais portugueses tenham importância suficiente para serem preservados, muitos são considerados "monumentos não intencionais" e lugares de "memória e identidade", que devem ser defendidos, considera também o especialista David Ferreira, da Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN). O técnico sublinha mesmo que seis dos mercados portugueses são "referências da arquitectura moderna", apontando os casos dos mercados da Ribeira e de Arroios, em Lisboa, e dos mercados de Tavira, Lagos, Barcelos e Viana como "obras de vanguarda". "Os mercados são sempre um lugar especial nas cidades", refere, por causa das características físicas dos espaços, mas também da sua função, mesmo que esta seja mais difícil de preservar.

Onde o tempo é lento
Falar de mercados é também falar de uma outra forma de viver o tempo. O geógrafo Herculano Cachinho, do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, com trabalhos publicados sobre geografia do comércio e do consumo, considera que as grandes metrópoles vivem hoje "entre dois mundos", um de "tempo rápido", representado, em termos comerciais, pelos "grandes shoppings", replicáveis "em qualquer lado", e um segundo mundo de "tempo lento", assente no comércio tradicional de rua e nos mercados municipais.

Nos mercados, "o tempo não existe", sublinha o docente: "São os lugares que temos na cidade onde podemos respirar, usufruir o espaço pelo espaço. É preciso é ter tempo, daí o público que mais frequenta os mercados ser mais idoso, que gosta da personalização do trato dos comerciantes.""


in Jornal Público, 26 de Abril, 2010
Fontes:
http://jornal.publico.pt/noticia/26-04-2010/ha-sete-mercados-em-vias-de-classificacao-19272244.htm
http://jornal.publico.pt/noticia/26-04-2010/mercados-municipais-devem-ser-preservados-mesmo-sem-comercio-dizem-especialistas-19272737.htm

Manta de retalhos para a Praça do Comércio

in Jornal Público
07.07.2009, João Mascarenhas Mateus

"O projecto de "requalificação" da Praça do Comércio que se encontra em discussão pública apresenta particularidades de método e de conteúdo sobre os quais importa reflectir.
A ideia de "requalificar", ou seja, de renovar uma praça que desde 1910 está classificada como monumento nacional constitui um erro de método. Um monumento nacional não se renova. Um monumento nacional protege-se, restaura-se, conserva-se na sua integridade física e simbólica.
Naturalmente que esta atitude prevista na lei deve acolher ocasiões como as criadas pelas recentes obras de infra-estruturas do subsolo, que implicaram o levantamento de grande parte da placa central, para estudar e intervir de forma modelar. Uma oportunidade pois para conhecer a imagem consolidada da praça que importa conservar e ao mesmo tempo definir as condições técnicas especiais a exigir à intervenção de reconstituição da unidade da sua imagem.
Como organismo de tutela, o Igespar deveria ter sido a primeira instituição a elaborar este estudo e a dar a conhecê-lo publicamente antes de qualquer proposta de intervenção. Um documento de base que limitaria à partida arbitrariedades de método e de estética. Ter-se-ia seguido a consulta e o concurso para o projecto de conservação.
Infelizmente, a posição do Igespar, longe de ser proactiva, tem sido reactiva. Limita-se a reagir a uma única proposta de um único arquitecto e à indignação de muitos cidadãos. Uma indignação que possivelmente é extensível a muitos técnicos do Igespar que regularmente não são solicitados ou não vêem nenhuma consequência prática dos seus estudos.
No conteúdo da proposta em discussão está prevista na placa central uma rede de losangos de pedra calcária que compartimentam alvéolos de brita de lioz e resina. Uma imitação asseptizada e higienicista da antiga terra batida que ali esteve durante séculos.
Se a premissa de restabelecimento do verdadeiro terreiro tivesse sido imposta previamente, não estaríamos hoje a discutir losangos, ou porque não círculos, ou ainda condicionamentos de fluxos, numa lógica ultrapassada de ordem e limites. A Praça do Comércio sempre foi atravessada em todas as direcções. Um espaço onde as pessoas se deveriam sentir livres de qualquer "encarneiramento" imposto de forma mais ou menos subliminar. Com esta solução impermeabiliza-se um dos corações de Lisboa e retira-se aos lisboetas mais uma oportunidade de contacto directo com a sua terra, num espaço que deveria ser de reencontro com a sua verdadeira essência de cidade. O que diriam os franceses se lhes impermeabilizassem a terra batida da Praça Bellecour em Lyon ou o Jardim das Tuilleries, em Paris?
No perímetro, prevê-se ainda reconverter com um desenho "mikado" de pedra vermelha e negra o aumento do lajedo na zona das arcadas para receber mesas e bancos corridos de esplanadas. Uma solução que recorda esteticamente o que se fez nos "paseos maritimos" de Espanha ou em qualquer parque de exposições industriais, cujas lógicas têm fins bem distintos.
Pergunto-me o que é que esta solução tem a ver com a pedra calcária que caracteriza a praça que, se usada simplesmente como prolongamento dos antigos lajedos, não introduzira obstáculos novos à leitura da sua unidade. Artifícios como os propostos seriam quem sabe úteis para uma delimitação de futuras concessões de esplanadas (sobre as quais nada é revelado no projecto). E como tal têm sido abolidos em muitas praças um pouco por toda a Europa. Veja-se a do Montecitorio em Roma, a da Unità d'Italia em Trieste, a Praça do Palais Royal em Bruxelas, a de Reims, a de São Marcos em Veneza. Com corredores para automóveis em granito, que nunca fez parte da lista de materiais usados na Praça do Comércio, consegue-se plasmar para sempre o trauma da invasão dos automóveis iniciado em 1949 com a abertura da Avenida da Ribeira das Naus.
Agora que se prevê um condicionamento de tráfego, poderia ser a ocasião ideal para eliminar a memória recente do asfalto, com calcário da região para reconstituição das vias calcetadas perimetrais de que se tem constância iconográfica.
À lista do muito que não é abertamente explicado à população junta-se o projecto de iluminação ou o mobiliário urbano que se pretende implantar. Componentes fundamentais para julgar da sua viabilidade e do seu resultado final. A Praça do Comércio é muito mais do que uma praça do Parque Expo ou das docas de Lisboa e, como tal, a reconversão do seu valor patrimonial e cultural ao serviço de lógicas baseadas só na animação comercial e social não deveria ser permitida por se tratar de um monumento nacional.
Lisboa arrisca a desmonumentalização da Praça do Comércio, utilizando-a como simples arranjo cenográfico ao serviço de uma lógica consumista de bares, esplanadas e asseptização de espaços onde muito da identidade de cidade está em risco de ser perdida. Da sua relação tradicional com o rio, com a terra, com os materiais da região, com a luz, com a sua história.
Desejava-se com a classificação de monumento nacional alargado à zona da Baixa Pombalina a candidatar a Património Mundial, conseguir garantir a aplicação integrada de uma metodologia história e crítica. Não se sonhava que sobre um monumento nacional a passividade da tutela fosse tão evidente na hora de a cobrir com uma manta e com retalhos vários de métodos e de conteúdos."
Coordenador técnico da candidatura da Baixa Pombalina a Património Mundial entre 2002 e 2006.

Fonte:
http://jornal.publico.clix.pt/

Autor do projecto para o Terreiro do Paço acolheu grande parte das críticas, mas mantém alguns aspectos polémicos


in Jornal Público 25.06.2009, por Inês Boaventura
"O corredor em pedra a ligar o arco da Rua Augusta ao Cais das Colunas desapareceu, os losangos da placa central foram esbatidos, a estátua de D. José passou a assentar num círculo em vez de um losango e o Cais das Colunas não vai ser transformado numa plataforma circular. O estudo prévio para o projecto do arquitecto Bruno Soares para o Terreiro do Paço acolheu, segundo disse hoje o próprio, “grande parte das críticas” que foram feitas por cidadãos, técnicos e órgãos de administração, e tem a “concordância” do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar).

Em conferência de imprensa, o arquitecto admitiu que a versão preliminar do projecto era “criticável” e tinha aspectos que “claramente tinham que ser revistos”, salientando que “obviamente, um projecto não resulta de um somatório de opiniões”, sendo necessário fazer “um balanço e valoração dos vários contributos”.

Já o presidente da sociedade Frente Tejo refutou as críticas que têm sido feitas pela inexistência de um concurso público para escolher o autor do projecto e pela falta de um debate público, afirmando que houve “uma auscultação ampla”, da qual resultaram “contributos muito relevantes e importantes”. “Consideramos estar a cumprir os princípios da participação e da transparência”, concluiu Biencard Cruz.

Quanto ao facto de a versão preliminar ter sido chumbada pelo Igespar, pelo impacto visual, arrumação da placa central e enquadramento da estátua, o presidente da sociedade garantiu, em declarações aos jornalistas à margem da conferência de imprensa, que o projecto revisto tinha tido “parecer favorável sem condicionantes”. Horas mais tarde, a assessora de imprensa da Frente Tejo corrigiu esta informação, afirmando que afinal “o projecto ainda não foi formalmente aprovado pelo Igespar, porque esta versão não foi ainda submetida oficialmente para o efeito”, existindo apenas “acordo de princípios”.

Os losangos
Acolhendo aquela que foi uma das maiores críticas ao desenho inicial, Bruno Soares manteve os losangos no chão da placa central, mas decidiu optar por “uma proximidade de cores e tons muito grande”. Tanto a base como as linhas diagonais que nela vão ser traçadas serão em lioz, mas enquanto a primeira será numa pedra fina e granulada para manter a imagem do antigo terreiro, as linhas serão de pedra lisa.

“Não vamos determinar como se usa a praça através do chão”, garante o arquitecto, explicando que insistiu nos losangos para “dar a perceber que é uma grande praça, não um espaço estático e fechado”. O também muito contestado corredor em pedra a unir a Rua Augusta ao Cais das Colunas desapareceu e a estátua de D. José deixou de assentar num losango, opção que Bruno Soares admite ter sido “um erro”.

Na nova versão do estudo, a estátua será “bordejada por uma faixa de pedra” e continuará a estar sobreelevada, a uma altura que num dos lados atingirá os 30 centímetros. Também a polémica sobreelevação da placa central do Terreiro do Paço em relação ao Cais das Colunas se vai manter, apesar de os cinco degraus inicialmente previstos serem agora transformados em dois degraus seguidos de um patamar e mais dois degraus, o que na opinião do arquitecto torna a aproximação “mais suave”.

Aqui, a grande diferença é que o Cais das Colunas, que o arquitecto considera ser o elemento “mais importante” da praça e aquele que a “diferencia de qualquer outra praça real”, não será transformado numa plataforma circular. Bruno Soares explica que a insistência nos contestados degraus, que serão ladeados por “duas rampas muito suaves”, “não é para dificultar a circulação, é para as pessoas terem a percepção de que é uma situação diferente”.

As esplanadas
Já os passeios nas laterais, que vão ser alargados e receberão esplanadas, continuarão a ter “um padrão das cartas de marear do século XVI”, num material ainda a definir, mas que se prevê que seja atravessado por linhas vermelhas e pretas. O passeio junto à Avenida Ribeira das Naus que, com a introdução do novo modelo de circulação automóvel, passou a ter duas faixas em calçada de granito, será em calçada à portuguesa.

O que também se mantém, apesar de ter gerado contestação, é o desnível entre o centro da praça e uma das laterais do Terreiro do Paço, onde, segundo Bruno Soares, haverá um lancil com 15 centímetros e dois socalcos com 25 cm cada, para “revelar o acontecimento histórico” que foi o abatimento do torreão poente.

As árvores
Já a possibilidade de plantar árvores na praça, onde estas chegaram a existir nos séculos XIX e XX, foi rejeitada pelo arquitecto, por considerar que iriam “segmentar o espaço” e contribuir para se “perder a sua dimensão”. Além disso, explicou, a vizinha Avenida Ribeira das Naus vai ser arborizada, pelo que não fazia sentido “deturpar a Praça do Comércio nem pô-la a concorrer com outros espaços”.
O autor do estudo para o projecto de requalificação, que se pretende esteja concluída a tempo da comemoração do centenário da implantação da República, em Outubro de 2010, quer que esta passe a ser uma praça utilizada no Verão e no Inverno, de dia e de noite, no quotidiano e em festas e outros acontecimentos. Para tal vão ser desenvolvidos projectos específicos de iluminação e de mobiliário urbano, que contemplará palcos, instalações temporárias, apoios para exposições, mercados e esplanadas.

Bruno Soares diz que a alteração já introduzida pela Câmara na circulação automóvel, que estiveram na origem de uma providência cautelar interposta pelo Automóvel Clube de Portugal, “é fundamental, é essencial para sustentar esta remodelação”. Igualmente importantes, acrescentou, são os projectos de reutilização dos edifícios da praça (e de toda a Baixa) e e recuperação das suas fachadas.

A praça “bateu no fundo”
No sábado, a sociedade Frente Tejo promove, às 15h30, uma “sessão de debate e esclarecimento” do projecto, no átrio do Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Numa iniciativa que deverá contar com a presença do presidente da Câmara de Lisboa, Bruno Soares irá apresentar as suas propostas, agora revistas, para dar uma nova vida à praça que, afirma, “bateu no fundo”.

Para o arquitecto, o maior desafio foi perceber “como é que actualmente se consegue criar condições para reintegrar este espaço na vida de cidade”, sendo certo que a sua intenção não é transformá-lo “numa sala de estar de Lisboa”, papel que acredita estar reservado ao Rossio. O Terreiro do Paço, diz, deve afirmar-se sim como “a grande centralidade cultural da Área Metropolitana de Lisboa”, “articulada com o grande centro comercial que é a Baixa”.

As obras de requalificação deverão arrancar em Agosto."

Fonte e imagem:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1388675

Terreiro do Paço não está a correr a António Costa como pretenderia


in Jornal Público, 14.06.2009, por Ana Henriques

"Mesmo não lhe sendo, segundo os especialistas, fatal em termos eleitorais, presidente da câmara vai ter de gerir com pinças remodelação da praça
Não sendo uma obra sua, é das que mais transtornos lhe têm trazido desde que tomou posse - só comparável aos dissabores que lhe causou o alargamento do terminal de contentores de Alcântara, outra decisão do Governo com repercussões pouco simpáticas na imagem da actual gestão da Câmara de Lisboa. A escassos quatro meses das eleições autárquicas, a remodelação do Terreiro do Paço converteu-se de trunfo eleitoral de António Costa em assunto incómodo, por via da onda crescente de contestação ao projecto.
Os losangos desenhados pelo arquitecto Bruno Soares para o pavimento da praça central são um dos motivos da discórdia. Outro relaciona-se com a sua sobreelevação no lado virado ao Tejo. O arquitecto pretende que a placa central fique num plano mais elevado do que o Cais das Colunas, ao qual se acederia depois de se descer do centro da praça por degraus ou rampas. O facto de Bruno Soares ter sido nomeado, e não escolhido por concurso, é outro motivo de protesto. As objecções ao projecto têm sido transversais, dos serviços camarários ao Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, passando por personalidades como a directora do Museu dos Coches, José Miguel Júdice ou Maria Filomena Mónica. Foram também vários os reparos feitos pela comissão de especialistas encarregue de acompanhar o trabalho de Bruno Soares - que se remeteu ao silêncio nas últimas semanas para reformular o projecto, em fase de estudo prévio.
Na blogosfera e no abaixo-assinado on-line pedindo a abertura de uma discussão pública sobre o futuro da Praça do Comércio, multiplicam-se as críticas não só ao Governo, que está a promover esta e outras obras à beira-rio através da sociedade de capitais públicos Frente Tejo, como à própria autarquia - apesar de, do ponto de vista formal, o papel desta última ser menor no empreendimento, pois trata-se de uma obra do Estado. A recente apreciação do projecto pela câmara - um procedimento aparentemente inútil, uma vez que as obras da administração central não precisam de licenciamento municipal - veio acentuar o equívoco, com António Costa a ter de exercer o seu voto de qualidade para desempatar uma votação que por pouco não redundou num "não" do executivo camarário aos planos de Bruno Soares.

Santana aproveita
No PSD, há já quem comente em surdina que a Praça do Comércio pode ser para o presidente da câmara aquilo que o projecto do elevador para o Castelo de S. Jorge foi para João Soares - um episódio que parecia menor mas que, numa disputa eleitoral taco-a-taco, terá ajudado a comprometer a vitória do socialista nas autárquicas de 2001. Quis o destino que quem roubou nessa altura o município a João Soares seja o mesmo adversário que António Costa vai ter pela frente em Outubro: Santana Lopes, que, tendo percebido a vantagem que lhe pode dar o descontentamento com o Terreiro do Paço, investiu no tema, tendo acusado a câmara de se estar a vergar ao Governo.
Será, de facto, esta uma questão que pode deitar a perder António Costa, numa cidade em que, nas eleições europeias, o PS superou o PSD por menos de um ponto percentual? A acreditar em alguns especialistas ouvidos pelo PÚBLICO, o autarca não corre esse risco. "O Terreiro do Paço não é susceptível de ser fatal a António Costa", opina o politólogo António Costa Pinto. Essa é também a opinião do sociólogo Villaverde Cabral: "O assunto não tem relevância eleitoral suficiente. É uma querela das elites artístico-intelectuais".

Em banho-maria?
"Para António Costa, a questão surge na pior altura", admite, por seu turno, o politólogo André Freire. Villaverde Cabral considera que aquilo que pode ser mortal para António Costa é a divisão da esquerda. "Apostava que o Terreiro do Paço vai ficar paralisado até às próximas eleições", acrescenta. Também para Costa Pinto a política de alianças que o presidente da câmara conseguir, ou não, estabelecer com outras forças políticas para ir a votos será um dos múltiplos factores mais importantes do que este tipo de episódio. Ainda assim, neste contexto, António Costa só tem a ganhar em "afirmar-se como presidente da câmara", demarcando-se do Governo, observa. "Esta contaminação entre poder local e administração central pode não lhe ser favorável". Os três analistas são unânimes em considerar que o arquitecto devia ter sido escolhido por concurso público."



"Incómodo tem sido gerido com silêncio
O PÚBLICO pediu aos candidatos à câmara um comentário sobre a remodelação do Terreiro do Paço. O único que se remeteu ao silêncio foi António Costa, que alegou que (ainda) não é candidato - apesar de ter assumido a recandidatura há longos meses. Numa recente visita às obras da praça, recusou-se a falar sobre os aspectos mais polémicos do projecto - "questões estéticas" -, sublinhando que se deve respeitar o critério do autor. Garantiu, mesmo assim, que Bruno Soares já alterou o que suscitou maior crítica. Também não falou sobre as ilegalidades processuais apontadas pela presidente da assembleia municipal."

Fonte:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1386551
Imagem:
http://www.frentetejo.pt/88/frente-ribeirinha-da-baixa-pombalina.htm

Decisão teve a ver sobretudo com “aspectos formais, de impacto visual”, explica director

Igespar deu parecer negativo ao projecto de Bruno Soares para o Terreiro do Paço
in Jornal Público, 05.06.2009 - 21h15 Alexandra Prado Coelho

"O Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar) deu um parecer negativo ao estudo prévio para o Terreiro do Paço, em Lisboa, elaborado pelo arquitecto Bruno Soares, revelou hoje ao PÚBLICO o director do Igespar, Elísio Summavielle.

As objecções do Conselho Consultivo do Igespar, comunicadas terça-feira à Sociedade Frente Tejo, responsável pela obra, baseiam-se em “aspectos formais, sobretudo de impacto visual, a arrumação da placa central, o enquadramento da estátua”, explicou Summavielle e não às propostas de Bruno Soares para “a organização do trânsito e a topografia”.

O director do Igespar lembra, contudo, que se trata de um estudo prévio e que, numa próxima fase, o arquitecto deverá apresentar o ante-projecto, que será também analisado e objecto de novo parecer.

Num artigo intitulado “Terreiro do Paço é excepção?”, publicado hoje no semanário Sol, Pedro Santana Lopes, candidato à Câmara de Lisboa, considerou “inadmissível” o que dizia ser a ausência de pareceres do Igespar relativamente ao Terreiro do Paço. “Chegou-se ao desplante de o vereador do Urbanismo responder aos jornalistas, com a obra já a decorrer, que 'um dia destes o Conselho Consultivo do Igespar há-de pronunciar-se...”, escreve Santana Lopes. E continua: “Então agora é assim? A obra vai por aí fora, os contratos vão-se fazendo e ninguém impõe o cumprimento da lei?”.

Duas obras diferentes
Reagindo a estas palavras, Summaville afirma que Santana Lopes está a confundir duas coisas: “Há uma obra de infra-estruturas a decorrer no Terreiro do Paço, que tem a ver com os esgotos e saneamento, e essa tem tido um acompanhamento arqueológico por parte do Igespar”, que recebe relatórios e verifica os vestígios arqueológicos que ali aparecem. E, explica o director, “há uma outra obra, na placa, que ainda não começou, e cujo estudo prévio [de Bruno Soares] nos foi enviado e sobre o qual nos pronunciámos”. Não há, portanto, segundo Summavielle, aquilo que Santana Lopes diz ser o aproveitamento “de movimentos de terras de obras de esgotos e saneamento para mudar o desenho e o perfil de uma praça que é símbolo cimeiro da História de Portugal”.

O projecto de Bruno Soares teve uma primeira apresentação pública no dia 26 na Ordem dos Arquitectos e também ali foi alvo de críticas. Vários dos que se encontravam na assistência – composta em grande parte por arquitectos – questionaram os losangos previstos para a placa central, o corredor em pedra a ligar o Arco da Rua Augusta ao Cais das Colunas, passando pela estátua de D. José, os degraus junto ao rio, e, nas zonas laterais, o padrão de rotas marítimas inspirado na cartografia portuguesa do tempo dos Descobrimentos.

O arquitecto ouviu atentamente as críticas e admitiu fazer algumas alterações no projecto, nomeadamente esbatendo os losangos da placa central. Bruno Soares está actualmente a reformular alguns pontos e a preparar o ante-projecto.

Uma das críticas mais insistentes durante a sessão na Ordem dos Arquitectos teve a ver com o facto de não ter existido concurso público para a obra no Terreiro do Paço, que foi confiada pela Sociedade Frente Tejo a Bruno Soares. No seu texto, Santana Lopes toca num outro ponto, considerando “uma aberração política e jurídica” o facto de “ser uma sociedade do Estado [a Frente Tejo], sem qualquer participação da Câmara, a fazer tudo isto em Lisboa”."



Conselho consultivo chamado em casos bicudos
por Ana Henriques

"O conselho consultivo é o órgão de aconselhamento a que recorre o Instituto do Património Arquitectónico e Arqueológico quando se depara com casos bicudos.

“Incumbe-lhe emitir pareceres sobre as matérias da competência do instituto que o seu presidente entenda dever submeter à sua apreciação”, diz a lei.

Dele fazem parte, além de representantes do próprio Igespar, cinco individualidades de reconhecida competência nesta área: os arquitectos Tomás Taveira, Alcino Soutinho e Vasco Massapina, o arqueólogo Cláudio Torres e o engenheiro Maranha das Neves. O conselho tem ainda representantes de ministérios e até um da conferência episcopal portuguesa, num total de 20 membros.

Entretanto, o líder da bancada do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa. Saldanha Serra, defendeu que o novo modelo de circulação rodoviária para a Baixa terá que ser submetido à Assembleia e que, tal como está, o seu partido não o viabilizará. Para o deputado municipal, o anúncio do presidente da câmara de que o novo sistema de mobilidade entrará em vigor até dia 16 “é de uma gravidade brutal e de uma falta de sensibilidade para os problemas que se estão a registar no trânsito e na mobilidade da cidade”.

O novo modelo de circulação passa pela utilização da Rua da Alfândega e Rua do Arsenal só por transportes públicos. Os automóveis ficam confinados à Av. da Ribeira das Naus, com uma faixa em cada sentido, e toda a circulação estará interdita nas laterais do Terreiro do Paço. “António Costa anda atrás dos projectos liderados pela Sociedade Frente Tejo, que se vai constituindo cada vez mais como um monstro para a cidade”, acusou Saldanha Serra, citado pela Lusa."

Fonte:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1385349