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Vamos compactar cidades, andar de bicicleta e dar vida à periferia


in Jornal Público, 13.06.2010, Por Carlos Filipe
  
"Consumimos a energia que se extrai do petróleo de forma desmesurada, mas as reservas têm uma vida finita. E isso vai custar muito caro. Em Lisboa já se estudam cenários para as cidades do futuro, e nem todos são catastrofistas, ao estilo Mad Max.


Chegará um dia em que o chamado de ouro negro será tão escasso e tão caro que enquanto não explorarmos convenientemente as energias alternativas teremos que viver apertadinhos, concentrados nas cidades, viajando o menos possível, andando a pé ou de bicicleta. Mas como o petróleo foi um milagre que gerou uma civilização embriagada de energia barata, também (a falta dele) poderá ser a salvação das cidades, pois teremos que aprender o bê-a-bá da energia para saber como poupá-la.

Ainda andamos a bebericar o significado do termo sustentabilidade e eis que surgem mais palavrões - Peak Oil e Transition Towns -, invulgares, é certo, aparentemente inócuos ao senso comum, por parecerem académicos, mas incorporando dramatismo suficiente para darem que pensar. É com eles, e pelos seus alertas, que os especialistas em energia, sociologia, geografia, urbanismo, arquitectura ou artistas têm aberto novas frentes de estudo, que certamente levará ao sacrifício do conforto a que estamos habituados.

De forma simplista, Peak Oil (ou Pico do Petróleo), corresponde ao período em que a máxima produção mundial é atingida, a partir do qual a extracção em campos novos não consegue mais superar o declínio nos mais antigos.

Este pico já ocorreu em vários países, entre os quais figura os EUA, segundo a previsão feita pelo geólogo da Shell, King Hubbert, em 1956. Uma vez instaurado o declínio, as tensões entre países exportadores e importadores vão crescer e alguém vai ter que ficar sem aquele recurso. Para muitos analistas, o início do declínio da produção, em termos globais, deverá começar nesta década.

"Pensamos, comemos e vimos petróleo. Está impregnado nas nossas vidas, nos alimentos (pelos fertilizantes), nos medicamentos, em centenas de materiais", constata Lluis Sabadell Artiga, director do site Post-Oil Cities (www.postoilcities.org). O especialista apresentou em Lisboa o desafio Para Lá do Petróleo, fórum de reflexão que a plataforma digital da secção regional do sul da Ordem dos Arquitectos (www.casadavizinha.eu) promove até Setembro.

Mário Alves, do Instituto Superior Técnico e especialista em sistemas de transporte, tem desenhado cenários evolutivos, de médio e longo prazo. "Se não aumentarmos o preço do transporte individual, as cidades continuarão a expandir-se e as viagens serão mais longas, logo requerendo mais energia, pelo que haverá tendência para as cidades se compactarem e as periferias viverem de forma autónoma, para o seu interior", alerta o engenheiro, que aponta um caminho: "Andar a pé e de bicicleta é, naturalmente, a solução. Há um cenário em que a energia não subirá muito o preço, se os carros largarem as suas gorduras. O carro é máquina ineficiente, pois são precisas duas toneladas para transportar uma pessoa de 70 quilos." E deixa uma nota optimista: "A escassez de energia até pode ser saudável neste aspecto, pois conduzirá à eficiência, à energia eléctrica. Pode não suceder assim, mas pode ajudar-nos a pensar e a decidir."

Quantidade não é movimento
Um futuro apocalíptico, reconhece Mário Alves, "seria o cenário Mad Max, lá para 2050". Como na ficção cinematográfica protagonizada por Mel Gibson, a escassez de petróleo levaria ao aparecimento dos Regional War Lords, senhores da guerra que emergiam a partir do enfraquecimento das instituições do Estado. "Não muito previsível no mundo ocidental, mas onde as pessoas viveriam em condomínios fechados, de elevada segurança."

Mário Alves lança outro cenário, agora contra os sistemas instituídos: "Deveremos garantir mais acessibilidade, que será a qualidade e não a mobilidade, que é quantidade, que de todo não significa liberdade de movimento."

O geógrafo João Seixas não poupa a classe política pela actual inacção. "A cidade, a híper-metrópole dos nossos dias, é filha de transportes baratos, a tal ponto que os morangos que comeremos amanhã poderão vir de Israel", salienta o investigador do Instituto de Ciências Sociais, que lança algumas farpas: "A região de Lisboa é profundamente dependente do petróleo e não tem governo a nível de metrópole, ou a nível local. Paralelamente, fecham-se equipamentos de proximidade, centros de saúde, maternidades, escolas, com o argumento da eficiência. E com o argumento das boas acessibilidades. E o que faz a população para protestar? Faz marchas lentas, para atrapalhar o bem colectivo, o andar depressa."

Há, porém, caminhos a seguir e muitos desafios. "A cidade é a solução, não o problema. Mas há que conhecê-la, medir o seu metabolismo, energético, cultural, social, económico. A crise é um forte sintoma de outras que virão, como o Post-Oil, se vier, em 2013 ou 2030, ou 2050", antevê João Seixas. Do seu ponto de vista, "as estruturas governamentais estão em delírio de incapacidade": "Vamos ter que medir os consumos, que os perceber. Daí que os desafios imediatos passem por radicalizar as críticas à fragmentação da região metropolitana de Lisboa, contra a dispersão, denunciar as cadeias de valor acrescentado, pois as imobiliárias não produzem cidade, produzem urbanização afastada da cidade". Mais: "Vamos ter que reduzir distâncias, promover a compacidade, a diversidade à pequena escala, saber como cada um dos bairros pode ter mais contenção nas suas actividades. Teremos que portajar a cidade e integrar na fiscalidade os consumos e os custos energéticos ambientais. teremos que valorizar a produção local, na alimentação, a cidadania e dotar o local e a metrópole de mais poderes e responsabilidades, sejam as freguesias ou as área metropolitanas". E a criatividade? "É altura da arquitectura trabalhar em mais estreita colaboração com a geografia urbana, a pensar o território e as cidades", diz João Seixas.

Alterar comportamentos
De alternativas, nos veículos e nos edifícios, Maria João Rodrigues, engenheira de sistemas energéticos, admite que os transportes representam a questão mais complexa. Os comportamentos são elevados ao extremo: "O sucesso de vida, o que é? Qualidade de vida é andar a pé? Não o é para toda a gente. Para muitos é andar de carro". Passando para o edificado, os comportamentos são importantes e representam um desafio para a arquitectura. Como se pode melhorar os consumos de energia? "Temos muitas oportunidade para utilizar melhor os recursos. Mas cria-se outro paradigma: como satisfazer essas necessidades, sem comprometer o conforto? A atitude será comportamental e cultural. No Post Oil, essa noção de conforto vai sofrer uma grande evolução."

As casas não mais serão as mesmas. Mas a sua eficiência requererá imaginação. "Como vamos melhorar os nossos consumos nas actividades domésticas, sejam a climatização, iluminação ou o aquecimento? É evidente que a energia solar é fantástica, mas só de dia. Poderemos evoluir para sistemas de armazenamento sofisticado, solar ou combinados com outras formas. Há fórmulas criativas que é preciso explorar, como recursos locais. A auto-produção. Há "n" hipóteses, mas há ainda mais por descobrir."

A arquitectura desempenhará um papel importante na mudança, embora sem perder as suas virtualidades. "Esta terá que evoluir, terá que racionalizar, sem comprometer o conforto, fazendo evoluir a habitação, pelo bom uso da tecnologia. Há muito conhecimento disponível. Há é pouca educação", diz Maria João Rodrigues.

A palavra, então, a um arquitecto, Miguel Nery, para quem a escala da cidade "é algo para o qual os arquitectos ainda não se sentem muito à vontade, mais habituados à escala do edifício." Miguel Nery admite a maior escala, mas na sua especialidade também admite alguma utopia na reflexão: "O princípio ecológico é fechar o ciclo. E consigo ver fechado o da água, o dos materiais [locais, renováveis, com baixa energia incorporada] também. Já o da energia, não. Vejo é uma substituição do sistema energético por outros, renováveis, solar, eólico, hídrico, dos biocombustíveis". Nos edifícios, prossegue, "já se vê alguma coisa, tal a importância da ecoeficiência". No entanto, quando se fecham os ciclos, é altura de "ver não a metrópole, mas os satélites que se podem fechar": "Deveremos, contudo, transfigurar as cidades, reutilizá-las, e tentar fechar o seu ciclo. Ou partir para outro lado qualquer, numa perspectiva de ficção científica, porque me parece quase impossível dar uma resposta ao cenário Post-Oil". É que, anulado o factor energético que nos ergueu, o que resta? "Se este modelo cair haverá o abandono das cidades. Já aconteceu. É um desafio. O movimento sci-fi parte para o espaço. E se partirmos para o mar, que será o mais hostil?" Mário Alves."

Fonte:

Seminário - A METRÓPOLE, FÁBRICA SOCIAL

Seminário para debater a cidade
Teatro Maria Matos, sempre às 18h30
Entrada livre
Organização do Teatro Maria Matos e da UNIPOP

Programa
28 SET Para que Servem as “Cidades Criativas”?
Debate com Pedro Costa e João Pedro Nunes

29 SET Da Cidade dos Criadores à Metrópole dos Produtores
Debate com Tiago Baptista, Luís Vasconcelos e Renato Carmo

30 SET O Governo Metropolitano
Debate com Susana Durão, João Seixas e Tiago Saraiva

1 OUT As Lutas Metropolitanas
Debate com Chullage, João Branco e Eugénia Margarida


"A cidade constitui-se metrópole a partir do momento em que uma série de equipamentos e edifícios ligados em rede transformam cada via de acesso num fluxo produtivo. Uma teia de ligações, configurada por sistemas de transportes públicos, pontes e vias rápidas, redes sem fios e circuitos de video vigilância, é diariamente activada pela circulação dos habitantes da metrópole, os quais percorrem os escritórios, as fábricas, as salas de espectáculo, as lojas, as escolas, os hospitais, os jardins e os centros comerciais em que se produz e reproduz a vida social. A metrópole assemelha-se então a uma fábrica social, lugar de mobilização cooperativa da força de trabalho, onde se encontram as matérias-primas, circulam as mercadorias e onde se pratica o consumo, alimentando os circuitos de uma economia global.

Esta natureza produtora da metrópole encontra eco em alguns debates. Quando governantes e urbanistas invocam a imagem da “cidade criativa”, em parte reconhecem a natureza produtora da vida espiritual metropolitana. E quando nos falam acerca da necessidade de criação de uma imagem de “marca” para uma cidade, de algum modo repetem o gesto empresarial de criação do logótipo, símbolo que se inscreve no produto e cuja compra permite consumir um certo estilo de vida. Entretanto, a metrópole enquanto fábrica social extravasa largamente o que pode ser contido por aquelas formulações. Veja-se o caso da “cidade criativa”, fórmula que tende a reduzir a produção metropolitana a uma dimensão elitista, reduzindo a metrópole dos produtores – que liga margem sul e margem norte, que engloba centros e periferias, que articula indústria, serviços e comércio – a uma pequena e mui nobre cidade de criadores, de acesso restrito a alguns grupos profissionais de índole artística, uma cidade preferencialmente localizada em novos bairros de charme que emergem no interior dos velhos bairros populares dos centros históricos.

A contra-corrente desta concepção emergente que transforma a fábrica metropolitana em cidade criativa, a primeira sessão deste seminário de quatro dias começará por debater o conceito de “cidade criativa”. Contando, para este efeito, com a participação de investigadores das ciências sociais que se têm dedicado aos estudos urbanos, perguntamos para que servem as “cidades criativas”?

No segundo dia, com a ajuda de quem trabalha a metrópole em planos tão diversos como as políticas de transporte e as representações cinematográficas, transitamos da cidade dos criadores à metrópole dos produtores.

Esta passagem permitirá que no terceiro dia analisemos o governo metropolitano, debruçando-nos nomeadamente sobre a sua implicação no trabalho de arquitectos e urbanistas chamados a debate. O seu traço livre constitui muitas vezes a face mais visível de práticas e discursos de «renovação urbana» apontados à requalificação de zonas degradadas e à valorização do espaço público, mas a arte e engenho de arquitectos e urbanistas também participa, de forma menos evidente, de estratégias dirigidas à administração de pessoas e bens.

Finalmente, no quarto dia, focaremos os conflitos que ocorrem na metrópole e que são habitualmente tratados de forma despolitizada e avulsa (as chamadas “questões locais”) ou enquanto questões do foro criminal (a invenção dos “bairros perigosos”). Neste debate em torno das lutas metropolitanas, à procura de velhas e novas ligações entre antagonismos diversos, contaremos com a participação de activistas envolvidos nas lutas pelos transportes públicos, membros de comissões de moradores, dinamizadores de associações culturais, etc.


Breve apresentação dos participantes:
João Pedro Nunes é Investigador no Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (ISCTE) e lecciona sociologia urbana no departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais, onde se formou e completou o doutoramento. Tem investigado o desenvolvimento urbano da periferia de Lisboa nas últimas décadas.

Pedro Costa é economista, formado no ISEG, e professor no Departamento de Economia do ISCTE. Tem trabalhado sobre questões do planeamento urbano e do desenvolvimento regional e local.

Luís Vasconcelos, antropólogo, tem levado a cabo investigação no campo das festas de música electrónica, com base no projecto de doutoramento intitulado Percepção e Modernidade. Alucinogénios no Portugal Contemporâneo. É investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS).

Tiago Baptista, historiador, tem diversos trabalhos sobre a história do cinema em Portugal. Trabalha como conservador do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM) da Cinemateca Nacional - Museu do Cinema.

Renato Carmo é Investigador no Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (ISCTE). Doutorou-se pelo ICS em Ciências Sociais com uma tese sobre os processos de urbanização dos meios rurais. Tem dedicado os seus estudos a temas como a desigualdade social e a marginalização territorial.

Tiago Saraiva é Investigador Auxiliar do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Doutorou-se pela Universidade Autónoma de Madrid em 2004 com uma tese em história das ciências sobre o papel dos laboratórios na construção da cidade moderna. Publicou recentemente, em co-autoria, Cidade & Cidadania (Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2008).

João Seixas é Investigador Auxiliar do ICS. Doutorado em Geografia Urbana pela Universidade Autónoma de Barcelona e em Sociologia do Território e do Ambiente pelo ISCTE, tem desenvolvido as suas investigações em torno das dinâmicas contemporâneas de governação urbana, bem como das lógicas e perspectivas do desenvolvimento sócio-cultural das cidades.

Susana Durão é Investigadora Auxiliar do ICS. Doutorada em Antropologia pelo ISCTE (2006), tem desenvolvido pesquisa na área do policiamento, patrulha e proximidade em Portugal, tendo particular atenção ao trabalho desenvolvido pela Polícia de Segurança Pública.

Eugénia Margarida é membro da comissão de moradores do Bairro das Amendoeiras, em Chelas. Associação que em 2005 e 2006, desenvolveu uma interessante mobilização contra o aumento de rendas imposto pela Fundação D. Pedro IV e pela defesa do direito à habitação condigna.

João Branco é membro do grupo Massa Crítica. Com origem em São Francisco (EUA) e realizado actualmente em mais de 350 cidades de todo o mundo, a Massa Crítica propõe um passeio no meio da cidade feito em transportes não poluentes, encorajando assim outras formas de mobilidade urbana.

Chullage é músico de intervenção e membro da Khapaz, associação sediada na Arrentela e pólo dinamizador da cultura local e da participação cívica. Tanto a sua música, como a sua intervenção política reflectem os problemas sociais existentes nas periferias das grandes metrópoles: a pobreza, o desemprego e precariedade laboral, a criminalidade e a violência policial."

Transportes
Metro: Roma
Comboio: Areeiro
Autocarros: 7/35/40/56/708/722/727/767

Fonte:
http://u-ni-pop.blogspot.com/2009/07/metropole-fabrica-social.html