Mostrar mensagens com a etiqueta Kerabraille. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Kerabraille. Mostrar todas as mensagens

Começamos a pensar em cidades para todos

Os 17 milhões de euros de fundos europeus disponíveis podem ajudar a tornar mais acessíveis as cidades portuguesas. Nelson Garrido
in Jornal Público, 20.02.2011, Por Samuel Silva
"Problemas de mobilidade afectam 60 por cento da população e há várias empresas portuguesas a desenvolver produtos para facilitar a vida urbana.

Um dado para início de conversa: estima-se que 60 por cento da população dos países da OCDE tem mobilidade reduzida. "A acessibilidade não é apenas um problema das pessoas com deficiência", explica a engenheira civil Paula Teles, que tem dedicado os últimos anos da sua vida a desenvolver projectos de mobilidade para cidades. A questão está a ganhar força no país. Nas universidades criaram-se cursos especializados e há várias empresas a desenvolver produtos que vão facilitar a vida de todos.

"Dentro de dez anos este já não será um problema", acredita Paula Teles, que também administra a empresa de estudos m.pt. Esta é a projecção da especialista para a próxima década. E hoje, como são as coisas? "Noventa por cento do que se está a fazer nos territórios é a negação da mobilidade. Há cidades que estão a construir passeios que são autênticas montanhas-russas", responde.

A análise de Jorge Leite, da direcção nacional da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (Acapo), aponta no mesmo sentido: "Em Portugal não há nenhuma cidade que se destaque em termos de mobilidade dos peões. É lamentável porque, em 1997, saiu legislação neste campo e o prazo para tornar Portugal acessível era 2004", avalia. Em 2006, a legislação foi corrigida e o novo prazo para resolver os problemas de acessibilidade foi alargado para 2012 ou 2017, conforme o ano de construção do local a adaptar.

Há por isso muito trabalho pela frente para tornar as cidades nacionais mais inclusivas e acessíveis a todos. A solução preconizada por Paula Teles passa pela criação de corredores livres de obstáculos, acessíveis a todos. Os percursos desenhados têm um metro e vinte de largura por dois metros e vinte de altura e permitem às pessoas circular de forma segura. "É como se estendêssemos grandes rolos de carpetes sobre as cidades", ilustra Paula Teles. Foi isso que propôs a Portimão, nos oito quilómetros de intervenção concluídos há poucos meses na cidade.

O desafio é agora criar sistemas de continuidade que permitam a uma pessoa com mobilidade reduzida movimentar-se por exemplo ao longo de todo um quarteirão. "Para os idosos, os cegos ou os deficientes, as cidades ideais não são Nova Iorque ou Londres, são aquelas onde podem chegar de casa ao café", aponta a especialista.

Mudança de mentalidades
Apesar das dificuldades, nota-se já uma alteração de mentalidades motivada pelos últimos anos de intervenção nos espaços urbanos, com a eliminação de barreiras arquitectónicas e a sinalização deste género de problemas. "Já existe uma maior consciencialização das pessoas relativamente à acessibilidade. Perante este facto, o poder autárquico já realiza algum trabalho através da implementação de planos de acessibilidade", reconhece Jorge Leite, da Acapo. "Os últimos anos foram uma revolução. Há 15 anos ninguém sabia o que era acessibilidade", concorda Paula Teles.

Essa mudança de mentalidade vê-se também no meio académico. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro abriu em 2007 uma licenciatura em Engenharia da Reabilitação e Acessibilidade, que foi a primeira da Europa com estas características. No ano passado, o exemplo português foi seguido pela Universidade de Coventry, no Reino Unido.

Também o Instituto Português da Qualidade tem em marcha um projecto de certificação de qualidade da acessibilidade. No âmbito desse trabalho, foi criada uma comissão técnica que reúne engenheiros civis, projectistas, empresas de transportes como a Carris, a STCP e os metros de Lisboa, Porto e Mondego, e organismos públicos como o Instituto Nacional para a Reabilitação, que têm discutido soluções para este problema.

A esse debate juntaram-se também várias empresas que nos últimos anos têm estado a desenvolver produtos com o objectivo de facilitar a vida nas cidades. É o caso da Thyssen, que está a criar elevadores que facilitam o acesso a pessoas com mobilidade reduzida, e da Soltráfego, que tem praticamente prontos a entrar no mercado novos semáforos, parquímetros e máquinas de bilhetes para transportes públicos pensadas para pessoas com mobilidade reduzida. Outra das soluções desenvolvidas por empresas portuguesas é o pavimento podotáctil Kerabraille, da Aleluia cerâmicas (ver texto ao lado).

Um mercado com futuro
Estas empresas responderam ao desafio de pensar cidades para todos e agora começam a tirar proveitos disso. "Os objectivos iniciais do projecto não foram económicos, mas este pode vir a tornar-se num negócio interessante", destaca Alexandre Lopes, director de prospecção da Aleluia. Os pavimentos podotácteis ainda não são rentáveis, mas a realidade pode mudar a médio prazo. "A sociedade está hoje mais disponível para a problemática da mobilidade e isso pode ter alguns resultados", acredita o mesmo responsável.

"A acessibilidade é um factor de desenvolvimento económico e neste momento há um conjunto enorme de empresas a surgir nesta área", conta Paula Teles. A gestora da m.pt. não tem dúvidas que a acessibilidade para todos "será um mercado de futuro". "Hoje não é ainda interessante do ponto de visto económico, mas vai abrir-se um nicho de mercado", antecipa. Desde logo porque, nesta matéria, há ainda muito que fazer nas cidades e há uma tendência para que cada vez mais pessoas tenham mobilidade reduzida.

Além disso, num cenário de crise económica, onde poucas obras são lançadas, as verbas que o QREN prevê para financiar projectos nas áreas das acessibilidades podem ser um chamariz para que algumas empresas apostem no sector. Actualmente há 90 municípios a desenvolver planos de acessibilidades e 17 milhões de euros de fundos comunitários destinados a esses projectos. É esta a realidade que leva Paula Teles a apostar em dez anos de mudança em matéria de acessibilidade. "A eliminação das barreiras arquitectónicas vai ser o principal factor de desenvolvimento dos territórios durante a próxima década", conclui a especialista."

Fonte e imagem:

Sentir com os pés o que os olhos não vêem

in Jornal Público, 20.02.2011
"Cerâmicas Aleluia desenvolveu piso que alerta cegos dos perigos. Produto estreado em Barcelos
 
 
De passo apressado e seguro, Nuno Araújo percorre as ruas da zona envolvente ao tribunal de Barcelos. A bengala branca ajuda-o há anos a movimentar-se pela cidade onde vive e agora conta com um novo auxílio: a autarquia instalou ali um piso podotáctil que avisa os cegos e amblíopes sempre que se aproxima uma zona de perigo como uma passadeira. O produto foi desenvolvido por uma empresa portuguesa e já está a ser exportado.

A inovação é da Aleluia Cerâmicas, que há um ano terminou o processo de desenvolvimento do Kerabraille, um conjunto de pavimentos cerâmicos que ajudam os invisuais e amblíopes a movimentar-se. A rugosidade do material transmite informações preciosas aos invisuais, que são sentidas pelos pés.

"Isto devia ser regra em todo o país", defende Nuno Araújo, que se recorda de ter recebido a novidade com surpresa após as obras na zona do tribunal de Barcelos. "Ao princípio, não sabia o que significava. Por isso é que acho que era bom que esta informação se tornasse obrigatória", explica. Hoje, sabe que sempre que pisa aquelas cerâmicas vermelhas se aproxima de uma passadeira, algo que diz facilitar-lhe a mobilidade. "Estes produtos fornecem informação táctil para aumentar a segurança dos peões e passageiros com deficiência visual", acrescenta Jorge Leite, da Acapo, para quem estas práticas deviam ser vistas "como uma obrigação social". "Os novos empreendimentos deveriam contemplar os sistemas de informação e orientação de raiz", defende aquele responsável.

A empresa portuguesa desenvolveu seis peças de cerâmica que, quando combinadas, permitem orientar com segurança os deficientes visuais. O elemento central é uma linha guia, constituída por bandas paralelas em relevo que auxiliam o percurso. Na prática, funcionam como uma estrada sobre a qual o cego pode caminhar com a certeza que não irá encontrar obstáculos no caminho. Os painéis são colocados em módulos de 40 centímetros para que não seja possível dar um passo sem perceber a informação passada pelo piso.

Sempre que os perigos se aproximam, é colocada uma linha de cautela, que pode também alertar para a proximidade de mudanças de direcção, por exemplo. A outra peça usada é a linha de segurança, uma superfície com pitões, que funciona como um sinal de stop. Esta linha tem uma cor diferente, de modo a alertar os amblíopes, sendo colocada junto de passadeiras, rampas ou limites de plataformas ferroviárias. Estas três peças são complementadas por duas outras, uma construída sem relevos, que indica mudança de direcção, e outra designada linha de localização específica, que serve para alertar para a presença de um edifício público.

Barcelos foi a primeira cidade a adoptar o pavimento cerâmico da Aleluia, mas outros municípios portugueses como Portimão e Penafiel estão já a desenvolver projectos de mobilidade que incluem este produto. Também a Refer já o instalou nas estações da Trofa, Sacavém e quatro paragens da Linha do Algarve, devendo seguir-se o metro de Lisboa.

O sucesso do Kerabraile levou também à assinatura de contratos para fornecer o aeroporto de Bruxelas, na Bélgica, e o metro da cidade brasileira de S. Paulo. Sentimos obrigação de desenvolver o produto porque temos essa competência para criar este tipo de soluções", assume o director de prospecção da empresa, Alexandre Lopes. Mas a Aleluia começa a perceber que pode tornar-se um negócio interessante, como tem mostrado o interesse estrangeiro nesta solução.

A Aleluia investiu cerca de meio milhão de euros no desenvolvimento do produto, uma verba que não é mais elevada porque a empresa já estava equipada com os instrumentos que permitem produzir o tipo de cerâmica usada neste pavimento. Apesar de existirem outros pavimentos podotácteis, estes distinguem-se como os únicos que oferecem uma solução combinada de seis peças. Além disso, o produto tem características técnicas diferentes, sendo fabricado em porcelanato extrudido, um material de elevada resistência mecânica, inócuo a agressões de ácidos, que se apresenta mais duradouro do que outras soluções como a borracha."

Link para o catálogo do produto Kerabraille:
http://www.aleluia.pt/arq/fich/Kerabraille.pdf
Fonte:
http://jornal.publico.pt/noticia/20-02-2011/sentir-com-os-pes-o-que-os-olhos-nao-veem-21329081.htm