E se o aqueduto fosse usado como pista para bicicletas?

in Jornal Público,
07.08.2009, Inês Boaventura

"A fragmentação da intervenção, entre Sete Rios, Praça de Espanha e Entrecampos, foi desafio a vencer, tal como os domínios do automóvel

A utilização do Aqueduto das Águas Livres como pista ciclável, a criação de acessos mecânicos à zona de Campolide, o surgimento de hortas urbanas em socalcos entre o Parque Eduardo VII e Monsanto e o estabelecimento de uma ligação entre o parque florestal e a área do aeroporto através de um conjunto de pontos verdes foram algumas das propostas ontem apresentadas, em Lisboa, por um conjunto de estudantes italianos e espanhóis, no âmbito do Master em Arquitectura Paisagista.
No seminário Refazer Paisagens. O Vale Central de Lisboa, cerca de 30 jovens diplomados em Arquitectura e Arquitectura Paisagista estudaram e apresentaram soluções urbanísticas para a área de Sete Rios, Praça de Espanha, Bairro Azul e Entrecampos. O Plano Director Municipal e outros planos urbanísticos em preparação para aquela zona de Lisboa foram a principal matéria-prima para um projecto que se prolongou durante 11 dias.
Divididos em seis grupos de trabalho, e orientados por professores de várias nacionalidades e de áreas diversas como o Urbanismo, Paisagismo, Ecologia, Engenharia e Botânica, os estudantes estrangeiros deram ontem a conhecer as suas propostas. Antonio Angelillo, do Centro Italiano de Arquitectura e responsável pelo seminário, frisou que "o objectivo não era apresentar um elenco de projectos de arquitectura", mas sim "sugestões" sobre as quais a Câmara de Lisboa possa reflectir.
No capítulo da mobilidade, defendeu-se a aposta na criação de um conjunto de vias dedicadas e equipamentos que ofereçam aos lisboetas a possibilidade de recorrer à bicicleta como meio de transporte quotidiano. Nesse sentido, o Aqueduto das Águas Livres poderia ser usado como pista ciclável e em Sete Rios, em frente ao Jardim Zoológico, poderia nascer um parque consagrado ao aluguer e estacionamento de bicicletas.
Para vencer o problema de diferença de cotas ao longo da zona de intervenção, propôs-se a instalação de acessos mecânicos, como elevadores ou ascensores, na zona de Campolide. Um outro grupo de trabalho sugeriu a renaturalização de linhas de água e a recriação de antigos caminhos históricos como forma de unir um território fragmentado, que os estudantes definiram como um puzzle cujas peças não encaixam.
A intenção do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles de unir o Parque Eduardo VII a Monsanto foi ontem repescada, tendo um grupo de alunos lançado a ideia de ao longo do percurso haver socalcos, nos quais nascessem pequenas hortas resguardadas por espaços verdes mais comuns em meio urbano. A entrada no parque florestal seria assinalada com um objecto que simbolizaria uma porta, junto ao qual haveria estacionamento para carros, autocarros e bicicletas.
Partindo do facto inegável de que Lisboa vem assistindo a um desenvolvimento das infra-estruturas viárias e de transporte público que não tem sido acompanhado pelo das "infra-estruturas ecológicas", um dos grupos de trabalho tentou arranjar uma forma de estabelecer uma relação "porosa" entre esses elementos. Para tal, tipificou um conjunto de pontos verdes, como bacias de retenção da água e zonas relvadas ou arborizadas, com os quais propôs que se pontuasse a faixa entre Monsanto e a área do aeroporto, criando entre elas uma união, embora não um contínuo.
A possibilidade de Sete Rios se afirmar como um bairro com identidade própria foi abordada pelo último dos seis grupos de trabalho, que mencionou a hipótese de o centro de congressos projectado para a Praça de Espanha se deslocar para junto da linha de caminho-de-ferro."

Fonte:
http://jornal.publico.clix.pt/