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A cidade das bicicletas quer agora convencer os habitantes a andar a pé

Adriano Miranda
in Jornal Público, 28.03.2011, por Maria José Santana
 
"Gracinda Martins tem carta de condução e automóvel, mas raramente recorre ao carro para as deslocações diárias. Vai e vem para o trabalho a pé. "São 15 minutos para cada lado", frisa. O recurso à viatura fica reservado para "os dias em que chove muito, quando é necessário ir às compras e trazer muitas coisas, ou quando é preciso sair da cidade". Há 20 anos que Gracinda cumpre o ritual diário de fazer os seus circuitos pela cidade a pé. No local onde trabalha, na Universidade de Aveiro, já todos a conhecem pela aposta teimosa - e saudável.

É, acima de tudo, uma opção de vida, uma experiência pessoal que a Câmara Municipal de Aveiro quer ver adoptada por muitos cidadãos, ao abrigo de um projecto europeu que pretende incentivar as pessoas a andarem a pé em pequenas soluções no seu dia-a-dia. E o testemunho de Gracinda Martins não podia ser mais encorajador: "Faço exercício físico, respeito o meio ambiente, ao mesmo tempo que tenho a oportunidade de apreciar pormenores da cidade que não descobriria se andasse de carro."

Parece difícil de acreditar mas, mesmo repetindo o mesmo caminho há já 20 anos - do Bairro do Liceu até à universidade -, Gracinda consegue descobrir sempre coisas diferentes. "É fantástico. No Parque da Cidade por exemplo, adoro apreciar as diferenças de paisagem e cheiros que o espaço tem em cada uma das estações do ano". "Isto já para não falar das pessoas com quem me vou cruzando e a quem tenho a oportunidade de dizer bom dia ou boa tarde", acrescenta esta verdadeira aficionada da circulação pedonal.

Mais barato
Nos dias que correm, com a escalada do preço dos combustíveis, Maria Gracinda encontra outro motivo de peso para manter a sua opção pelas deslocações a pé. "É uma poupança considerável", atesta, ao mesmo tempo que reafirma que se trata de uma escolha que dá prazer e nem sequer obriga a grandes esforços. "Aveiro é plana. Até consigo fazer o meu trajecto diário de saltos altos, sem qualquer dificuldade", sublinha.

À ausência de grandes declives juntam-se outras características que tornam Aveiro uma cidade amiga das caminhadas. Começa desde logo por ter dimensões relativamente reduzidas. Em cerca 45 minutos, qualquer cidadão em condições normais consegue percorrer a pé a distância que liga dois pontos totalmente opostos da cidade. Exemplo? Fazer a ligação da zona das Glicínias até à entrada de Esgueira, ainda que pareça uma grande caminhada, não deverá levar muito mais do que 45 minutos. Ainda que a cidade seja atravessada pelos canais urbanos da ria, nos pontos mais estratégicos da zona urbana não faltam pontes para encurtar distâncias.

Para os que possam ainda não estar convencidos do quão fácil pode ser circular pela cidade a pé, fica mais um argumento de peso, propalado por quem também opta pelas caminhadas em detrimento do automóvel. "À excepção de alguns serviços públicos que estão na zona da Forca-Vouga, cerca de 90 por cento das nossas necessidades estão na zona central, desde supermercados, bancos, entre outros serviços", evidencia outro cidadão aveirense, João Oliveira. A opção pelas deslocações a pé foi um hábito que herdou da sua estadia, por razões profissionais, em Lisboa.

"Na altura em que saí de Aveiro para Lisboa até estava a pensar comprar carro, mas acabou por se tornar desnecessário uma vez que andava a pé e utilizava os transportes públicos", recorda. Trouxe esse hábito até à sua cidade natal, na certeza de que tal só foi possível porque mora no centro da cidade e o local de trabalho "era a cinco minutos a pé". João Oliveira sabe também, até tendo por base aquilo que vai ouvindo de conhecidos, que "se tivesse filhos para ir levar todos os dias à escola seria mais complicado fazer as deslocações a pé".

Outro dos exemplos de vida que traduz a "mudança de mentalidades" que a Câmara de Aveiro pretende provocar na população local - incentivando-os a optarem cada vez mais pelos percursos a pé em deslocações que têm de fazer diariamente no centro da cidade - é o de Suzete Marques. É natural de Pinhel, encontra-se a trabalhar e a residir em Aveiro, e praticamente só pega no carro ao fim-de-semana para ir para a sua terra natal. De resto, faz quase tudo a pé, com pequenas excepções. "Consigo fazer muito bem as deslocações a pé dentro da cidade e evito esse problema do estacionamento", realça.

Criar hábitos
Tanto Gracinda Martins como João Oliveira e Suzete Marques têm já incutida no seu dia-a-dia a mensagem que a autarquia quer transmitir aos seus munícipes com a anunciada aposta de distribuir mapas da cidade pelos moradores. No total, serão distribuídos 2000 mapas a partir dos quais os munícipes podem medir em minutos a pé os trajectos que querem percorrer. "As pessoas vão perceber que, num raio muito razoável para deslocações a pé, podem encontrar tudo ou a grande maioria do comércio, serviços e equipamentos de que necessitam no seu dia-a-dia", explica José Quintão, responsável pela aplicação do projecto em Aveiro.

Nestes mapas, que serão distribuídos pelos residentes na zona da beira-mar e visitantes, é ainda dada informação sobre o acesso aos transportes públicos ou parques de estacionamento na zona ou ainda dos monumentos e locais de interesse. A curto prazo, a autarquia pretende avançar também com descontos nos parques de estacionamento para os clientes dos estabelecimentos comerciais no centro da cidade, em parceria com a Associação para a Modernização e Revitalização do Centro Urbano de Aveiro. A ideia passa por permitir que as pessoas possam deixar os seus carros nos parques de estacionamento e vão às compras no comércio tradicional, tendo direito a um desconto proporcional ao volume de compras, que pode ir até ao estacionamento gratuito.

Na cidade que foi pioneira ao nível da aposta nas bicicletas como meio de transporte na zona urbana - as BUGA (Bicicletas de Utilização Gratuita de Aveiro) foram inovadoras a nível nacional -, a mobilidade e o desenvolvimento sustentável continuam a estar na ordem do dia. Pelo menos é o que garantem os responsáveis da autarquia. "Ao longo dos últimos anos, as questões em torno da mobilidade adquiriram maior relevo pela importância que assumem no desenvolvimento sustentável das cidades e das regiões", refere o vice-presidente da câmara, Carlos Santos, para sublinhar, depois, que o município está "ciente desta realidade", razão pela qual "tem participado como parceiro em inúmeros projectos nacionais e europeus", de que é exemplo o Active Access. E, relativamente a este último, fica a promessa: "O município está fortemente empenhado em criar todas as condições para que os seus resultados sejam um êxito.""

Fonte e imagem:

Produção de bicicletas ameaçada pela China

Por Maria José Santana

in Jornal Público, 7 de Março, 2010
"Águeda recusa-se a perder a imagem de marca de "capital da bicicleta", mas corre riscos de assistir ao desaparecimento de algumas empresas.

A situação difícil da Sirla, empresa que dá nome a uma das marcas nacionais de bicicletas mais reconhecidas, é apenas um sinal da crise que afecta este sector em Portugal. A firma fundada em 1965 e sediada em Águeda, município que vem sendo rotulado de "capital da bicicleta", está em processo de insolvência. Mas existem outras empresas do sector a viver dias complicados.

O cenário é confirmado pela própria associação representativa do sector, a Abimota (Associação Nacional das Indústrias de Duas Rodas, Ferragens, Mobiliário e Afins), que garante que o problema não fica a dever-se apenas à conjuntura económica actual, que provocou uma retracção do mercado (quebra de vendas).

A principal ameaça é a "concorrência desleal" que advém dos países asiáticos. Para os dirigentes da Abimota urge avançar com medidas de controlo do dumping no sector, até porque as contas feitas não deixam grande margem para dúvidas.

"Só no dumping comercial estamos a falar de uma taxa de 40 por cento. E não é possível contabilizar os efeitos do dumping ambiental, social e político", traçou Paulo Rodrigues, secretário-geral da Abimota. "Portugal é pouco rigoroso na forma como deixa entrar outros produtos", exemplificou.

A associação que conta com um laboratório de ensaios para certificação dos produtos das suas associadas alerta ainda para a necessidade de separar o trigo do joio em matéria de qualidade. E tal só será concretizável com uma legislação que determine que "uma determinada entidade possa actuar no mercado, seleccionando os produtos que são certificados", defendeu o secretário-geral da associação representativa do sector.

Num estudo elaborado em 2008 pela Direcção-geral das Actividades Económicas é apontado que a produção nacional anual, assegurada por cerca de 30 empresas, ascende a "um milhão de bicicletas, sendo o consumo interno estimado da ordem das 300 mil unidades". Os últimos números conhecidos, relativos ao ano de 2007, apontam para um valor de exportações na ordem dos 150 milhões de euros. A conjuntura actual não é, certamente, tão auspiciosa. A Abimota reconhece existir uma retracção do mercado e fala em várias empresas "em situação difícil", sem especificar quantas.

Paulo Rodrigues não deixa de destacar o facto de o cenário da produção nacional só não ser pior por força da aposta de uma grande empresa francesa (Decathlon) nas empresas portuguesas. "Caso não houvesse esse efeito da Decathlon, a crise no sector podia ser pior", analisa.

A redução da taxa de IVA (hoje nos 20 por cento) aplicada actualmente às bicicletas poderia constituir, segundo os responsáveis da Abimota, uma "medida prática" de ajuda ao sector. "Devia ser uma taxa equiparada à dos ginásios [cinco por cento], uma vez que a bicicleta tem um papel fundamental no bem-estar e na saúde", argumentou Paulo Rodrigues.

Sobreviver via exportação
O cenário de crise no subsector das bicicletas acaba por ser confirmado junto do administrador de duas empresas nacionais reconhecidas, a Órbitra e a Miralago (esta última mais vocacionada na produção de bicicletas para ginásio). Desde 1956 que o empresário Aurélio Ferreira acompanha a evolução da indústria das duas rodas (bicicletas e motorizadas).

"Hoje acompanho o retrocesso, só restando "esqueletos" de fábricas onde outrora, por todo o lado, ao "silvo das sirenes" se seguia o "matraquear" das passadas dos milhares de operários que do sector viviam", lembra o empresário aguedense. E acrescenta: "Águeda, outrora capital das duas rodas, tem somente uma rotunda que simboliza um passado, que foi imenso neste sector. Resta-nos isso."

No caso concreto da Órbita, assume Aurélio Ferreira, a salvação tem sido o facto de o volume de exportação se situar nos 60 por cento. Outro dos "segredos" passa, segundo o empresário, pela constante procura de "nichos de mercado e de produtos de maior tecnologia onde outros têm dificuldade em chegar"."

Fonte:

Funcionários da Câmara de Aveiro ficaram fãs da bicicleta

in Jornal Público, 13.07.2009, Maria José Santana

"Executivo camarário desafiou os trabalhadores da autarquia a pedalarem até ao local de trabalho.
Numa cidade como Amesterdão, a imagem de ver alguém vestido formalmente a andar de bicicleta parece ser já coisa normal. Em Aveiro, que até é terra das famosas "bugas" (bicicletas de utilização gratuita de Aveiro), nem por isso. Que o diga Teresa Aragonez, trabalhadora da Câmara de Aveiro, que se fartou de ser surpreendida com os olhares de espanto de quem circulava na estradas da cidade. "As pessoas não estão muito habituadas a ver alguém de fato e de sapatos altos a andar de bicicleta", conta esta funcionária que decidiu aceitar o desafio da autarquia de começar a pedalar para o local de trabalho.
A proposta surgiu no âmbito da adesão de Aveiro ao Projecto Europeu de Mobilidade Saudável LifeCycle: A bicileta é vida e previa que, durante dois meses, os funcionários usassem a bicicleta como meio de transporte para as instalações camarárias, num mínimo de quatro viagens por semana. Um total de 66 trabalhadores aceitou o desafio, em grupos de três elementos, e, no final, até houve prémios para as melhores equipas.
"Foi bastante satisfatório e agora esperamos que esses trabalhadores continuem a usar a bicicleta nas suas deslocações para o trabalho", frisa Capão Filipe, vereador do pelouro da Mobilidade. O autarca acredita que esta atitude dos funcionários poderá também vir a ter um efeito de "contágio" junto dos outros trabalhadores da câmara e também em empresas privadas.
Para Teresa Aragonez, o fim do concurso De selim para o trabalho não implica deixar a bicicleta de lado. Esta funcionária, que presta apoio ao executivo municipal, quis desafiar-se a si própria e agora que o conseguiu não irá parar. Apesar de viver no centro da cidade, assume que "sempre foi muito comodista. O carro vinha sempre até à porta da câmara", reconhece. Difícil mudar? "Até foi fácil, mas foi curioso chegar à câmara e ver as pessoas a olhar. E também ver as pessoas na rua a repararem na roupa."
A equipa desta funcionária não conseguiu alcançar os primeiros lugares, mas ela considera que o verdadeiro prémio já foi conquistado: cumprir o desafio até ao fim, ganhando em saúde e diminuindo os custos com combustível. "Nos dias em que venho de bicicleta não chego ao trabalho com tanto stress, porque não tenho de andar à procura de estacionamento", nota, ao mesmo tempo que garante que também viu diferenças "na hora de abastecer o carro". Já para nem falar na melhoria da condição física."

O concurso
13.07.2009
"Vencedores tiveram um prémio: bicicletas
Os vencedores do desafio De selim para o trabalho foram premiados com bicicletas. A entrega dos prémios e o encerramento da iniciativa decorreu no início do mês, numa sessão que culminou com um passeio de bicicleta pela cidade. Segundo anunciou a autarquia, a equipa constituída por Paulo Pinho, António Borralho e António Silva - que se apresentaram no concurso com a designação de "Zé-Dos-Pé-Dal" - foi a grande vencedora do concurso que decorreu durante dois meses e atraiu a participação de 66 funcionários da Câmara de Aveiro, pioneira no incentivo à utilização de bicicletas como meio de transporte."

Fonte:
http://jornal.publico.clix.pt/