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Homenagem a Gonçalo Ribeiro Telles na Gulbenkian


in Jornal Público
07.12.2011 - 11:12 Por Lucinda Canelas

"Gulbenkian e Centro Nacional de Cultura celebraram ontem o paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. Colegas do ensino e da política, alunos e amigos quiseram honrar o mestre e, sobretudo, o homem.

Gonçalo Ribeiro Telles falou no fim, como compete ao homenageado. Com o auditório 2 da Gulbenkian cheio, com muitas pessoas de pé, o arquitecto paisagista a quem muitos chamam "mestre" admitiu o desconforto: "Nunca estive tão envergonhado para falar." Deram-lhe a palavra depois de um dia de testemunhos de alunos, discípulos, amigos e companheiros de vida política, uns monárquicos, como ele, outros não.

"Conhecemo-nos no combate à ditadura e é curioso que, sendo ele um monárquico e eu um republicano dos sete costados, a nossa empatia tenha sido imediata", lembrou Mário Soares já na recta final do encontro Gonçalo Ribeiro Telles - Um Homem de Serviço, que a Gulbenkian e o Centro Nacional de Cultura (CNC) organizaram ontem em Lisboa.

Pensador e político com um sentido cívico inultrapassável, defensor da liberdade e do direito à originalidade de ideias, disseram muitos dos oradores, Ribeiro Telles é, sobretudo, "uma pessoa extraordinária", sublinhou Soares: "Quando se fala do Gonçalo, há o problema dos afectos. Admiramo-lo pela sua verticalidade, pela sua obra, pela sua coragem, mas, mais do que isso, temos-lhe um afecto enorme pela pessoa que ele é."

Aos 89 anos, o político que foi membro da Aliança Democrática (AD), governante e deputado, fundador do Partido Popular Monárquico (PPM) e do Movimento Partido da Terra, ou o arquitecto paisagista a quem devemos as reservas agrícola e ecológica nacionais, os jardins da Gulbenkian (com António Viana Barreto) e o Amália Rodrigues, sente que tem ainda uma palavra a dizer. "Quero ser útil ao momento presente", dissera ao PÚBLICO antes da intervenção final.

E ser útil hoje é falar do despovoamento do mundo rural, da morte lenta das cidades, da "paisagem que é ainda um problema", porque os políticos, desinformados, continuam a dizer que querem defender os ecossistemas e a achar, ao mesmo tempo, que um eucaliptal é uma floresta: "Eles não sabem que nos eucaliptais não cantam os passarinhos e na floresta sim." O que é que lhes falta para saber olhar para o território? "Andar a pé, conhecer o país inteiro, as pessoas", responde este homem para quem "é mais fácil deixar marcas na paisagem do que nas pessoas".

Saber falar com as pessoas é uma das qualidades deste paisagista afável e atento, garantiu o comentador político Luís Coimbra. E, para o provar, contou uma história dos tempos da AD. Andavam na estrada em campanha eleitoral quando Ribeiro Telles desapareceu. Como todos estavam já à espera para entrar nos carros, Coimbra decidiu ir procurá-lo.

Mais bosques e mais hortas
"Chovia muito e eu fui dar com ele à porta de uma vacaria, a explicar aos agricultores que era melhor deixar os animais à solta no pasto do que alimentá-los com rações", lembrou Coimbra, com quem o arquitecto paisagista se cruzou pela primeira vez em meados dos anos 60. Para ele, Ribeiro Telles é um "político falhado" a quem reconhece "convicções firmes" e uma liberdade de pensamento inegociável. Porquê um político falhado? Coimbra esclarece: porque, apesar de ter razão, "as suas ideias para um desenvolvimento sustentado de Portugal ficaram para trás", por falta de inteligência de governos e governantes.

É precisamente a inteligência que falta a muitos que António Barreto, Guilherme d"Oliveira Martins e Eduardo Lourenço elogiaram neste homem de família, professor e cidadão que tem formado gerações através do exemplo e defendendo sempre "o ambiente como uma causa total", disse Augusto Ferreira do Amaral, dirigente do PPM.

Avesso aos jogos partidários, o paisagista tem sido essencialmente, segundo Freitas do Amaral, "um homem bom", que encarou a política como acto de cidadania e "a ecologia como a causa de uma democracia reformista". Se Portugal cumprisse a "excelente legislação" que Ribeiro Telles ajudou a fazer, defendeu o professor de Direito, "sem violações e sem excepções superiores à regra, seria incomparavelmente melhor".Teria, certamente, mais "lugares de paz e sossego, mais bosques e hortas", garantiu o sociólogo António Barreto, que foi seu colega de Governo, numa comunicação intensa, em que não se cansou de falar da independência de Ribeiro Telles e da sua paixão pela cidade. "Homem generoso e doce, mas firme", disse-o várias vezes Barreto, vê em cada espaço verde desperdiçado e em cada ribeira destruída uma derrota.

Voz activa na sociedade portuguesa há mais de 50 anos, Ribeiro Telles foi muitas vezes ignorado, acrescentou o sociólogo, mas o tempo deu-lhe razão. E teve um raro privilégio, concluiu Barreto: "Realizou um dos grandes sonhos dos homens cultos - fez jardins."

Jardins que são tentativas de paraíso, lembrou Eduardo Lourenço, defendendo que o paisagista é um "poeta da relação com a Terra", um "utopista novo": "Gonçalo Ribeiro Telles é uma mistura do ecologista-mor que foi Francisco de Assis com o botanista maravilhoso e romancista fantástico que foi Jean-Jacques Rousseau."

Para que não restassem dúvidas, o ensaísta fez questão de explorar este paraíso que o arquitecto foi trabalhando e falou da paisagem como se ela fosse a cara humana que a natureza nos reenvia. "Sempre tentámos criar com as nossas próprias mãos o paraíso", insistiu o ensaísta. Ribeiro Telles tentou tanto e tão bem que merece um título especial - Lourenço chamou-lhe "o jardineiro de Deus"."

Fonte e imagem:
http://www.publico.pt/Cultura/quando-um-homem-cria-paraisos-devemos-chamarlhe-jardineiro-de-deus-1524106

Paisagem, por Lídia Jorge

Jornal Público, 03.05.2009
"No princípio duma tarde de Janeiro de 1998, eu encontrava-me na casa dos meus avós, em Boliqueime, quando vi um descapotável amarelo subir a rampa duma colina em frente, e dele sair um jovem casal que se dirigiu a uma casa em ruínas que recentemente havia sido posta à venda. A imagem maravilhosa de um casal jovem à procura duma casa abandonada era demasiado envolvente. Fiquei a imaginar como iriam ser no futuro esses meus vizinhos, românticos, que se passeavam abraçados, e se viam desfocados, por entre as amendoeiras em plena floração. Não tardou, muito, porém, que não tivesse chegado uma terceira personagem - uma escavadora, que se pôs a abrir uma passagem no valado, pulverizando as pedras. E de lá, ou de outra máquina qualquer entretanto chegada, saíram umas pessoas com moto-serras e abateram as amendoeiras cujas copas estavam em flor. Devo dizer que não deixaram uma única em pé, mesmo aquelas que supostamente não estorvariam ninguém. Fazia frio. O descapotável desapareceu com o casal. Decorreram 11 anos, a ruína já passou de proprietário várias vazes, mas os troncos das amendoeiras ainda lá estão como naquele dia, e também está um montinho de terra cinzenta a atestar que alguém fez um furo artesiano para fazer prova de que ali havia água. Provavelmente, os seus proprietários actuais aguardarão pelo momento próprio em que seja assinado um projecto de trinta ou quarenta casinhas do tamanho de pombais, encaixadas umas nas outras, como se vêem ao longo da Estrada 125 e nos sítios mais improváveis.
De facto, sobre a deriva da edificação em Portugal, não vale a pena repetir o que há muito se sabe. Trinta e cinco anos volvidos após a instauração da Democracia, confirma-se o que está à vista - que nesta área, a da Arquitectura e do Urbanismo, como em outras, o país conheceu um desenvolvimento extraordinário, enriqueceu e liberalizou-se, mas nas suas estruturas profundas ainda não se democratizou. Se se tivesse liberalizado e democratizado, em doses e ritmos semelhantes, precisamente, o debate e o escrutínio público teriam atalhado a gestão dos interesses, e ao menos, por exemplo, entre a população, já se teria difundido a ideia de que a casa é de cada um mas a paisagem é de todos. E se a praça, o auditório, o pavilhão é para todos, em algum momento do processo não se pode dispensar de ouvir a opinião da comunidade. Ou dito de outro modo, embora sabendo como é complicado determinar o bom gosto e o mau gosto, e até mesmo o útil e o inútil, não podem ser tão poucos os que se interessam pelo património que à comunidade diz respeito, que tão poucos intervenham, e intervindo, que o facto não tenha consequência.
No caso do Algarve, a situação é particularmente sensível porque a sua primeira riqueza confunde-se com o valor da sua paisagem, e poucos serão aqueles que não sentem que o caminho que tem sido percorrido mereceria ter tido um outro rumo. O que não quer dizer que não se esteja a ponto de atingir uma nova consciência. Por alguma razão, a palavra requalificação atingiu, ultimamente, um significado tão relevante entre nós e se multiplicam as iniciativas de re-harmonização dos espaços públicos. Também começa a tornar-se claro, no que à Região do Sul se refere, que é preciso reconquistar a singularidade arquitectónica que foi sendo desperdiçada. Projectar e construir é sempre uma proposta de futuro, e envolve esquecimento. Vários tipos de esquecimento. Mas havia entre nós um património popular construído que não foi devidamente incorporado na passagem da cultura rural para a cultura de indústria do lazer, com perdas avultadas para o futuro. Dispomos de particularidades climáticas e ambientais únicas, que fizeram desenvolver uma atmosfera de interiores singular e que foi ignorada. Existe uma vegetação incrivelmente própria, uma tipologia de arvoredo único, que fornece elementos decorativos, e de estruturação muito próprios, e que não foi aproveitada. Até mesmo a construção acautelada em relação à linha do mar, durante as últimas décadas parece ter sido desconhecida. Só para dar alguns exemplos.
Mas é por isso que, nos dias de esperança, como este que hoje comemoramos, é gratificante verificar que há profissionais e proprietários que sabem inflectir a rota dos factos, sobretudo quando existem exemplos concretos que mostram à evidência como é possível construir sem ofender a Terra, que é possível criar estruturas modernas poeticamente arrojadas, sem ofender os traços tradicionais dominantes, que é possível manter o respeito pelo património construído, sem manifestar atavismo. Que é possível criar ambiente adaptado ao meio envolvente, sem resvalar para o casticismo ou falso tradicionalismo perverso.
É possível recuperar espaços antigos mantendo-lhes a memória, mas evitando o anquilosamento despropositado. E sobretudo, é possível - ou pelo menos parece ser possível - urbanizar subtraindo à densidade da habitação a superfície suficiente para criar espaços livres, verdes e abertos, que permitam uma ocupação condigna. É possível ser arrojado sem ser ostensivo, ser simples e estar ao nível das melhores criações arquitectónicas e urbanistas da Europa e do Mundo, sem copiar nem repetir.
Precisamente, as obras agora premiadas respondem a esse tipo de critérios. Elas, e muitas outras seleccionadas, e que só não foram distinguidas por uma questão de justiça relativa, ou por mera subjectividade do júri, confirmam o que nós sabemos - que existem dois Algarves. Que um deles se arrisca a ser, no futuro, um espaço suburbano, isto é, um meio criador de indiferença e anomia - correspondendo, por agora, ao mais vistoso e ao mais dominante -, e um outro, tanto no Litoral quanto no Interior, que vai persistentemente constituindo a excepção, uma espécie de peças de resistência que bem procuradas estão por aí. Parece-nos bem, no dia de hoje, premiar aqueles que alinham neste segundo grupo. Esta, pelo menos, foi a nossa íntima convicção.
Resta-me desejar para este Prémio, longa vida. Tanta e tão longa, e tão bem cumprida nos seus propósitos, que um dia ninguém precise de contar, numa sessão semelhante, episódios como aquele que referi em relação àquela antiga casa que tinha amendoeiras. Que no futuro, em termos de Arquitectura e Urbanismo, Ambiente e Paisagem, tudo sejam cravos vermelhos."

Texto dito pela escritora, no dia 25 de Abril, na entrega do Prémio Bienal de Arquitectura e Urbanismo, instituído pela Câmara Municipal de Loulé e de cujo júri fez parte.

Fonte:
http://www.publico.clix.pt/