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Seguro escolar não paga acidentes de alunos que vão de bicicleta para a escola

Portaria com 16 anos só cobre acidentes dos alunos que
vão a pé 
PÚBLICO/ARQUIVO

24/05/2015
Na escola “Aníbal Cavaco Silva”, em Boliqueime, pais e alunos vão este domingo “De bicicleta em família” a pedalar para que seja alterada uma lei anacrónica.

Os acidentes com bicicletas, no decorrer do trajecto de casa para escola, não estão cobertos pelo “seguro escolar”. Em caso de acidente, o seguro só vale de alguma coisa se o aluno fizer a deslocação de casa para a escola a pé. Hoje, na escola Básica Integrada, Aníbal Cavaco Silva, em Boliqueime, um grupo de pais e alunos vai “pedalar”, para que seja alterada uma portaria, publicada há 16 anos, quando os transportes alternativos e a mobilidade suave não faziam parte do quotidiano da vida dos portugueses.
Paulo Carvalheiro, professor de Educação Visual, luta há quase duas décadas para alterar as mentalidades, em relação à mobilidade. Quando começou a ir de bicicleta de casa para a escola, - numa altura em que as atenções estavam viradas para último modelo de automóvel acabado de sair (mesmo que fosse comprado a crédito),- foi visto como uma espécie de extraterrestre. “Paulo, estás bem? … Passa-se alguma coisa?”, diz, a lembrar algumas das perguntas que colegas e amigos lhe faziam, quando chegava, de pedaleira, para se livrar do “sarilho” automobilístico. As coisas mudaram, em termos de aceitação social, mas a lei permaneceu colada ao passado.   
Segundo a Portaria 413/99, de 8 de Junho (artigo 25º, alínea f, estão excluídos da cobertura do seguro escolar “os acidentes que ocorram em trajecto com veículos com ou sem motor, que transportem o aluno ou sejam por este conduzidos”. O diploma, subscrito pelos ministérios das Finanças, Educação e da Saúde, só admite excepção, para efeitos de cobertura de risco, se o uso da bicicleta for inserido numa “actividade escolar”. O valor do prémio pago pelo Estado à seguradora corresponde a um por cento do ordenamento mínimo nacional (cerca de cinco euros/ano) por cada aluno. Os acidentes que possam vir a ocorrer com os veículos afectos aos transportes escolares, também estão fora da cobertura desta apólice - mas nesse caso existe um seguro especifico de responsabilidade civil.
O presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores da Bicicleta (FPCUB), José Manuel Caetano, reclama a revogação do diploma que considera anacrónico: “Não faz sentido que haja uma lei a discriminar o uso da bicicleta, quando o risco de sinistralidade com este veículo, quando comparado com o automóvel, não é mais do que uma formiga em relação ao elefante”. Paulo Carvalheiro, que fez a escola primária na Alemanha – onde aprendeu a dar as primeiras pedaladas – justifica o encontro “De bicicleta em família”, (inserido no programa Europen Cycling Challenger 2015), como uma forma de chamar a atenção para a necessidade de inverter o estado das coisas.
A proposta consiste em fazer um passeio entre Vale Judeu e Boliqueime, convidando os pais e os filhos, a percorrerem cerca de sete quilómetros, por uma via do interior. Este é o caminho que ele faz todos os dias de casa para a escola onde dá aulas e, ultimamente, duas vezes por semana – à quarta e à sexta - acompanhado de um grupo de dez alunos. “Quero demonstrar, no Domingo, que o percurso é seguro”. Aliás, ressalva: “ quero compartilhar este luxo - de manhã, a ouvir os passarinhos, e não as buzinadelas dos carros a passarem por nós”. 
O professor, de 47 anos, dinamizador da equipa de BTT da escola, reconhece que se seria “mais confortável” não desafiar as instituições. “É um risco”, admite, mas acha que é  “urgente mudar, em diversos contextos” a forma como é olhado este meio de transporte. “É necessário criar vias, com segurança, para que os pais não fiquem casa com o coração nas mãos”, diz, referindo-se ao trabalho que falta fazer da parte dos municípios. Ao nível da região falta, também, concluir a Ecovia do Algarve. No troço entre Faro e Olhão, por exemplo, os ciclistas são convidados a deixar o percurso junto à ria Formosa, sendo empurrados para o meio do intenso e perigoso tráfego da Estrada Nacional (EN) 125.
Por seu lado, José Manuel Caetano, destaca o papel que a escola deve ter na “formação de cidadãos responsáveis”, destacando as boas práticas de vida saudável, a andar de bicicleta. Paulo Carvalheiro vai mais longe, na ligação entre o sucesso no ensino e a prática desportiva. Para isso, recua a 1994, o ano em que deu aulas em Quarteira. “Querem dar uma volta de bicicleta comigo?”, A resposta, vinda de uma turma de alunos considerados “problemáticos”, surpreendeu. Alguns jovens que outros consideravam “perdidos” numa comunidade multicultural, diz, encontraram um novo rumo. Agora, seguindo o lema da canção, de Zeca Afonso,  “vem, e traz um amigo também” fez da bicicleta a sua “arma” na luta pela inclusão social."

A Primavera da Calçada da Ajuda: jacarandás num piso de peças pretas e brancas


Nos próximos 18 meses vai nascer na irregular rua uma paisagem roxa.

"João Nunes, um dos arquitectos paisagistas do projecto de requalificação da Calçada da Ajuda, em Lisboa, apresentou esta semana numa sessão de esclarecimento ao público as obras de mais de um milhão e meio de euros. O objectivo é melhorar as condições de circulação dos peões e combater o estacionamento abusivo.
A Calçada da Ajuda vai ser refeita da zona de Belém ao Palácio da Ajuda, custando à Câmara de Lisboa (CML) mais de 1,6 milhões de euros. Em todo o comprimento da rua nascerá um passeio que conjuga a calçada portuguesa com modernas peças pretas e brancas horizontais e que será mais largo ou mais estreito conforme as zonas. ”Sofre alterações consoante o perfil da rua, mantendo-se sempre a faixa de rodagem da mesma largura”, explica João Nunes. Serão plantados jacarandás para fazer a ligação entre "o Jardim Botânico e o centro de Belém e o Palácio da Ajuda”, afirma.
O piso complicado e ondulante da Calçada origina estacionamentos abusivos na faixa de rodagem e em cima dos passeios. Para combater este fenómeno, a equipa de arquitectos da Sociedade de Reabilitação Urbana de Lisboa Ocidental (SRU) decidiu criar grandes passeios, dando prioridade à circulação dos peões. As árvores de flores roxas pretendem, além de colorir a rua, impedir que os veículos subam os passeios. “O estacionamento abusivo será combatido com a redução do perfil” da faixa de rodagem. Mas o número de lugares de estacionamento mantêm-se.
A reorganização do espaço será feita em três fases. No próximo mês, a empreitada começa junto ao antigo Museu dos Coches e vai até ao INEM. Nesta primeira fase, durante sete meses, a circulação no sentido descendente será cortada tanto para veículos privados como públicos, desviando-se o trânsito para a Calçada do Galvão.
A segunda fase ocorrerá no troço entre o INEM e o Jardim Botânico, durando oito meses, e a terceira concluirá, por mais quatro meses, a empreitada até ao Palácio da Ajuda.
A Empreitada para a Reabilitação do Espaço Público e Renovação das Infra-estruturas da Calçada da Ajuda é um projecto em estudo há quatro anos pela SRU, a empresa da CML que fiscaliza e licencia obras de reabilitação."

Morreu o artista que iluminou o deserto: Walter De Maria

The Lightning Field: 400 hastes metálicas dispostas numa área de um quilómetro no deserto do Novo México

"Tinha desejo de espaço, de viagem, levou a produção artística a uma escala inédita na sua relação com a natureza.
 
Walter De Maria, uma dos nomes mais conhecidos da land art, morreu com 77 anos, na quinta-feira em Los Angeles, durante o sono, provavelmente vítima de um enfarte. Considerado pela ensaísta e historiadora Rosalind Krauss um dos artistas que expandiu o campo da escultura, inscreveu a sua assinatura na história da produção cultural e artística da segunda metade do seculo XX, antes de iniciar um período de reclusão que o afastou das principais instâncias de divulgação e mediatização da arte.
Durante 50 anos, o seu trajecto espelhou as aspirações, a energia e o inconformismo que ficou associado aos finais da década 1960 e aos primeiros anos da década seguinte. Começou por estudar História e Arte em São Francisco, inclinando-se para a pintura, mas o contacto com as obras do músico La Monte Young e da coreógrafa Simone Forti desviaram-no na direcção da escultura. Nesse período, desenvolve trabalhos que integram linguagem, instruções, texto, e que apontam para afinidades com o conceptualismo, mas expõe pouco. Em 1960 aterra em Nova Iorque e começa a usar pequenas formas geométricas e materiais como alumínio e aço, expondo em apartamentos e galerias, participando em happenings, fazendo filmes. Imerso na cena downtown da cidade, reaviva, por um curto e intenso período, o seu interesse pela música. Integra como baterista os The Primitives, a banda que seria a antecâmara dos Velvet Underground, ensaia com Don Cherry, e grava em 1964 e 1968, respectivamente, Cricket Music e Ocean Music, discos que misturam sons naturais e provindos de instrumentos; e que, depois de uma reedição limitada em 2002, continuam indisponíveis.

Desejo de espaço
Também em Nova Iorque reencontra Robert Whitman, com quem gere uma galeria, e testemunha os primeiros desenvolvimento do minimalismo. Entretanto já domina o trabalho com o aço e o alumínio e imagina-se em trabalhar numa escala que as condições de Nova Iorque não permitem. Inspirado por desenhos que vem realizando, pelas memórias visuais da Costa Oeste, pela beat-generation, tem desejo de espaço, de viagem. Vive em Nova Iorque, mas pensa no Pólo Sul, no deserto do Sara, nas montanhas do Canadá. Não quer que o trabalho seja julgado pelo contexto social e espacial que a galeria impõe. Tem o apoio da Dwan Galerry, viaja ao deserto de Nevada, ao Sul do EUA, a Munique, onde apresenta uma instalação de terra que 1977 será rebaptizada de New York Earth Room. Mas a primeira obra que os críticos classificam de earthwork é Mile Long Drawing, de 1968, um “desenho” de longas e paralelas linhas de giz sobre o Deserto do Mojave.

Em 1977 apresenta uma das suas mais famosas peças, The Lightning Field: 400 hastes metálicas dispostas numa área de um quilómetro no deserto do Novo México. Compõem um retângulo, uma escultura geométrica, cuja experiência surge determinada pelos efeitos das condições atmosféricas sobre a luz e as cores da paisagem. Pode ser apreciada de madrugada, ao nascer do sol ou sob uma tempestade (as hastes atraem a eletricidade da relâmpagos). Para um trabalho que só acontece com a presença física do espectador no lugar, torna-se uma das obras mais icónicas de Walter De Maria, acabando reproduzida em várias revistas e citada no romance Blinded by the Light by Morgan Hunt.

Embora preferindo expor em espaços amplos e exteriores, não deixou de marcar presença em galerias e certames internacionais. De um conjunto notável, destacam-se Primary Structures no Jewish Museum, em 1966, momento marcante do minimalismo e, três anos depois, When Attitude Becomes Form, na Kunsthalle de Berna, colectiva que assinalava o advento do pós-minimalismo. Refira-se igualmente as participações nas Documentas de Kassel de 1968 e 1977 e uma retrospectiva no Kunstmuseum de Basileia em 1972. Nos anos 1970, contava já com apoio da Dia Foundation e do coleccionador Heiner Friedrich que se tornaria fundamental para a realização de obras ainda disponíveis à experiência dos espectadores: a já citada The Lightning Field, The Vertical Earth Kilometer em Kassel (1977) ou The Broken Kilometer em Nova Iorque (1979), que estaria na origem The 2000 Sculpture (1992).

Artista que nas últimas décadas se foi tornado invisível (no mundo da arte), deixou-nos obras onde não faltam sentido de humor, conceitos, aventura, espaço. Mas para muitos dos seus pares mais jovens, e até para curadores de renome, tornou-se personalidade relativamente obscura. Há dois anos, Richard Aldrich, do Dia Foundation, lamentava a ausência de monografias sobre o artista e reivindicava a descoberta de trabalhos que lançavam uma nova luz sobre a sua produção. Pode ser que nos próximos anos essa investigação ganhe um novo fôlego, agora que Walter De Maria desapareceu".
 

Vamos partilhar mais coisas e pagar com dinheiro digital



"Esqueçam as pilhas de livros a encherem a casa, esqueçam um carro por pessoa. E preparem-se para o mundo das moedas digitais, que vão começar a expandir-se. Lauren Anderson, do Collaborative Consumption Lab, e Stan Stalnaker dão-nos alternativas de consumismo e poupança. Primeiro trabalho da série Conversas de fim de ano.

Já andamos a partilhar, a reutilizar, a reciclar, a emprestar, mas vamos fazê-lo muito mais, segundo o movimento Collaborative Consumption (CC, Consumo Colaborativo) - um conceito, um site e uma consultora nascidos do livro What’s Mine is Yours – How Collaborative Consumption is Changing the Way We Live.
E que dizer das moedas que pesam na carteira, com tamanhos diferentes, e a exigirem toda uma rede de produção - da manufactura à distribuição? O mais provável é virem a ter uma concorrência feroz de milhares e milhares de outras moedas digitais como a Ven, criada por Stan Stalnaker e transaccionada na rede social Hub Culture– foi a primeira moeda privada a ser listada na Thomson Reuters, é sustentável e mais imune às flutuações do mercado, defende.
No site do Collaborative Consumption há uma actualização constante das tendências globais da economia de partilha e vai-se fazendo o registo da explosão de novas formas de troca, comércio, aluguer, etc em todo o mundo, baseadas na colaboração e na ideia de comunidade. 
Embora existam especificidades geográficas, a directora de inovação do CC, Lauren Anderson, aponta as semelhanças: há cada vez mais pessoas interessadas em aceder a “meios eficazes de obterem aquilo que querem” – “sejam coisas mais materiais ou menos tangíveis como tempo, aptidões ou espaço”. “Isso tem gerado uma revolução económica desde a crise que levou as pessoas a reconsiderarem onde gastam o seu dinheiro, o valor que dão a coisas materiais, mas também levou a uma maior consciência ambiental global”, diz. “Tem acontecido também pela grande necessidade de comunidade que nasceu depois de décadas de isolamento e de independência, em que sentíamos que tínhamos que nos bastar a nós próprios.
Através do consumo colaborativo as pessoas estão a perceber o valor da comunidade. E com a Internet e as novas tecnologias estamos a redefinir o termo comunidade e a forma como nos ligamos a ela”. Ou seja, se antigamente emprestávamos a alguém alguma coisa, o mais provável era esquecermo-nos dela – mas hoje, graças à tecnologia, é muito mais fácil emprestar ou trocar coisas mesmo com desconhecidos porque temos maneira de registar e traçar o rasto das coisas.
Sem conseguir quantificar o movimento em termos de número de pessoas envolvidas, Anderson diz, no entanto, que se pode ter uma ideia olhando para indústrias ou sectores específicos: só o Airbnb cresceu no último ano o que cresceu nos três anteriores (entre 2008 a 2011 tiveram 5 milhões de reservas, passaram para 10 milhões este ano). Esta plataforma junta pessoas que querem alugar os seus quartos/casas com quem anda à procura deles, ou seja, junta quem quer fazer dinheiro a quem quer poupar dinheiro. Tem de tal forma crescido que há uns tempos em Nova Iorque era maior o número de reservas de Airbnb do que de hotéis.

Voltar a formas antigas
No fundo, há um regresso a formas antigas de troca e partilha, um regresso ao modo de vida colaborativo: “Quando a Rachel Botsman estava a escrever o livro [What’s Mine is Yours…] percebeu que havia três coisas que poderiam categorizar exemplos de colaboração”, lembra Lauren Anderson. “O primeiro eram os mercados de redistribuição: passar coisas que não são necessárias num sítio para outro onde são necessárias; o segundo são os sistemas de produtos ou serviços, em que as coisas podem ser compradas, emprestadas ou partilhadas mas pertencem a outra pessoa ou empresa (partilha de carros, por exemplo); e a terceira, os modos de vida colaborativo que são coisas menos tangíveis – o nosso tempo, através de bancos do tempo, as nossas capacidades, que são o nosso conhecimento que pode ser partilhado em plataformas, e o espaço, que pode ser o Airbnb, lugares de estacionamento ou armazéns”.
Factores essenciais para que estes negócios, muitos deles baseados no sistema peer-to-peer (interpares)? Confiança e eficácia. Sem confiança os sistemas não funcionam, ou seja, quer seja a empresa a controlar, ou a passar essa responsabilidade aos membros quando a “rede” cresce, a confiança “é absolutamente crucial”.
Há um exemplo que serve para ilustrar a forma como este factor “evoluiu”: a plataforma Zimride (partilha de boleias). Quando arrancou, os fundadores não podiam desatar a pedir às pessoas para começarem a dar boleias. Por isso foram directamente às empresas e às universidades apresentar a ideia e sugeriram que os estudantes e os empregados procurassem alguém na rede com quem partilhar deslocações – “porque já existe um nível de confiança entre as pessoas que estudam na mesma universidade ou trabalham na mesma empresa, mesmo que não se conheçam”. Só depois se lançaram para as plataformas abertas. “Notaram que, ao princípio, as pessoas só usavam as redes privadas, mas agora usam as plataformas públicas porque se criou confiança, sentiam-se mais confortáveis. Esse é um passo enorme na forma como podemos confiar e contar uns com os outros para ter as coisas de que precisamos – e é uma coisa que vai começar a expandir-se à medida que nos sentirmos mais confortáveis”.
O outro factor, a eficácia, é o que motiva a adesão: “Quando se pensa em partilha de carros, aquilo que se quer é que seja útil”, diz. “Tem que ser mais fácil contratar/adquirir esses serviços do que sermos nós a fazer”.
O consumo colaborativo parte também da ideia de que hoje procuramos mais experiências do que propriamente objectos físicos. Vamos ser menos consumistas ou vamos passar a coleccionar experiências como coleccionávamos coisas? “Acredito que nos estamos a afastar dos típicos ideais do consumismo em que quanto mais tínhamos, melhor éramos”, responde Anderson. “Acho que estamos à procura de formas mais significativas de nos relacionarmos uns com os outros. O papel das empresas tradicionais é olharem para o que está a acontecer: as pessoas estão fartas de transacções de grande volume e querem relacionar-se com seres humanos reais”.
 
Tendência para desmaterializar
Desejo de contacto humano, mas tendência para a desmaterialização: não deixa de ser curioso que em relação aos objectos tipo CD, livro, DVD, a tendência seja para nos livrarmos deles, tal como acontece com o próprio dinheiro. Na Hub Culture (HC) transaccionam-se ideias, e não só, mas promovem-se encontros e acontecimentos no mundo real. Trocam-se aptidões, serviços por Ven, a moeda que nasceu em 2007 para ser usada pelos membros da HC como sistema de pontos.
Só em 2009 é que passaram a ter “um cabaz”a criar o valor da Ven – é uma mistura entre as moedas internacionais, bens como ouro, prata e crude, e carbono “de forma a torna-la mais verde”, explica Stan Stalnaker. “Ao incorporar os preços do carbono no cabaz ligámos a moeda ao ambiente, e tornámo-nos na única moeda que tem o carbono incluído. Actuamos um pouco como o Banco Central: temos os bens em reserva. A maior parte dos países só tem em reserva cerca de 2% dos bens; como somos muito pequenos temos que ter 100% em reserva. Não damos números sobre as reservas mas já trocámos o equivalente a 1.5 milhões de dólares e está a crescer rapidamente”.
As vantagens ambientais são estas: “De cada vez que se usa Ven está-se a ajudar o planeta, porque teremos mais capacidade de investir nas reservas de carbono. Até agora, salvámos 25 mil hectares de floresta na Amazónia usando a Vem”.
As outras vantagens da Ven, que só funciona na rede ou nos chamados Pavillion da Hub Culture (espaços físicos espalhados pelo mundo onde se desenvolvem actividades, como co-working), é que é “uma óptima barreira contra a inflação porque é suportada em parte pelos bens: se eles sobem, a Ven também”. “É uma moeda naturalmente menos flutuante: desce e sobe menos do que as outras moedas e do que os bens.”
Podemos comprar Ven com dinheiro ou vendendo os nossos serviços – “no fundo tudo o que se pode comprar com dinheiro pode comprar-se com Ven”.
Stalnaker, que trabalhou na área de marketing da Time Warner, imagina que daqui a cinco anos vamos ter mais de 5 mil moedas digitais, e que um dia cada um terá a sua própria moeda. De alguma forma, já há vários tipos de “moeda digital” além das que se intitulam como tal – exemplo são as empresas com cartões que têm sistema de pontos acumulados. “Acho que um dia cada um terá a sua própria moeda e essas moedas serão transaccionadas umas com as outras. Você é boa escritora e eu um bom conferencista, provavelmente vamos trocar uma coisa pela outra”.
E uma das tendências, antecipa, é a junção do dinheiro e da informação: “No Facebook há pelo menos 80 mil milhões de pontos de informação: temos pessoas, lugares, etc. Os algoritmos vão um dia calcular o valor dessas coisas e a partir daí cria-se a capacidade de negociar cada uma dessas informações: quantos ‘gostos’ no Facebook valem um Ven? Isso é o futuro do dinheiro – todos os pontos no gráfico social vão tornar-se monetizáveis, adquirem valor e esse valor será transaccionado”.
Estes são dois exemplos de como a economia de mercado, baseada num consumismo desenfreado, está a transformar-se – nem Lauren Anderson, nem Stan Stalnaker arriscam dizer que os movimentos que representam vão substituir completamente os actuais, mas ambos notam mudanças significativas no comportamento dos consumidores.
“Acreditamos que o consumo colaborativo vai continuar a crescer, e andará lado a lado com a economia tradicional”, diz a directora de inovação do CC. “Mas vai ter um impacto enorme na economia tradicional na medida em que já não criar produtos para serem usados por uma única pessoa mas para serem partilhados. E as empresas vão deixar de se dedicar exclusivamente aos produtos e a começar a ter relações com os seus clientes em vez de fazerem apenas meras transacções – ou seja, as empresas vão querer manter uma relação com os seus clientes, personalizando os produtos e prolongando a vida desse produto”.  
Para quem gosta de ver a cor do dinheiro, não há razão para alarme: a Ven e outras moedas digitais não vão ameaçar as actuais moedas, analisa Stalnaker. “As pessoas continuarão a usar euros, dólares, libras. O que vai acontecer é o oposto da ideia de uma moeda controlar as outras – vão existir várias que permitem uma maior escolha. Mais escolha dá mais oportunidades, mais flexibilidade e isso cria um maior crescimento económico”."

Fonte e imagem: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/xxxxconsumo-vamos-partilhar-mais-coisas-e-pagar-com-dinheiro-digital-1578140

Uso de bicicleta em Gaia terá desconto na factura da água

Eliza Southwood
in Jornal Público, 09.11.2012 - 19:23

"O presidente da câmara de Gaia anunciou esta sexta-feira que os utilizadores de bicicleta como meio de deslocação para o trabalho poderão reduzir a sua factura da água e reaver o investimento num prazo de 18 meses.  

“Será um projecto de mobilizar as pessoas para a utilização da bicicleta ou, atendendo à dificuldade de cidades como Porto e Gaia, de veículos que tenham o mesmo tipo de carga não poluente”, explicou Luís Filipe Menezes no final da cerimónia comemorativa do visitante número 2,5 milhões ao Parque Biológico de Gaia.
O objectivo é o de “induzir um novo comportamento ambiental” e “introduzir uma taxa negativa benévola pró ambiental”, salientou o autarca.
O processo é simples e passa pela criação de um parque de estacionamento com um "kit" de registo electrónico onde, a cada dia de utilização, o cidadão deverá passar a sua bicicleta, para contabilização, após o que recebe um cheque ambiental que “pode deduzir em vários tipos de facturas e impostos municipais”. “Deduzi-los principalmente no imposto da água, do saneamento e resíduos sólidos urbanos”, acrescentou o presidente da câmara, segundo o qual, e com base no preço de “um veículo médio do mercado”, a pessoa recupera “num ano e meio aquilo que investiu na aquisição” da bicicleta, se a utilizar durante esse tempo como meio de transporte. A partir daí, “significa que uma pessoa pode não pagar água, se usar esse meio”, frisou.
Para “dar o exemplo” o autarca irá “fazer uma campanha interna forte para que seja a administração a dar o exemplo” e os trabalhadores da autarquia e empresas municipais os primeiros a usar as duas rodas. Menezes, que quer ver implementado o modelo ainda durante o seu mandato que termina no próximo ano, admite, porém, que este projecto não será aplicado em todo o território do concelho, uma vez que “não é realista” se olhadas as distâncias do centro às freguesias limítrofes.
“Mas é realista para núcleos centrais da cidade, para os centros históricos, para os núcleos mais urbanos centrais da cidade”, assinalou, garantindo que este modelo será “trasladado para qualquer lugar onde possa vir a ter responsabilidades de gestão”".

Italianos e gregos trocam automóveis por bicicletas


in Jornal Público, 04.10.2012 

"Em 2011 foram vendidas mais bicicletas (1 milhão e 750 mil) do que carros (1 milhão e 748 mil) em Itália, de acordo com o jornal The Telegraph .

Numa Itália deprimida depois da II Guerra Mundial, Antonio Ricci percorre as ruas de Roma procurando, desesperadamente, a bicicleta roubada de que necessita para poder trabalhar.
Mais de 60 anos depois de Vittorio De Sicca ter realizado esta cena no filme “Ladrões de Bicicletas”, os italianos voltaram-se novamente para este meio de transporte.
Diz o mesmo jornal inglês que o aumento do desemprego, a imposição de medidas de austeridade e o aumento do custo de vida – em Itália, um litro de combustível custa cerca de 2 euros por litro, o valor mais alto na Europa - fizeram com que, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, os italianos comprassem mais bicicletas do que carros.
As famílias estão a comprar bicicletas, a desistir dos segundos carros e a aderir a esquemas de partilha de carros.
“Cada vez mais pessoas estão a tirar as velhas bicicletas das garagens ou das caves. São fáceis de usar e custam pouco. Em distâncias de cinco quilómetros ou menos, são geralmente mais rápidas do que outros meios de transporte”, disse Pietro Nigreli, da associação industrial Confindustria, em declarações ao Telegraph.
Mais de 10% de italianos passaram a utilizar a bicicleta para irem trabalhar ou para chegarem à escola. Numa população de 60 milhões, este valor representa 6,5 milhões de pessoas.
Em declarações ao jornal La Repubblica , Antonio Della Venezia, presidente da Federação Italiana de Amantes de Bicicletas, disse que as “pessoas que até agora só tinham conduzido carros, estão a mudar a forma de pensar”.
Num país famoso pela indústria automóvel e que, em 2009, apresentava a quarta maior taxa de posse de automóveis no mundo (cerca de 60 carros por cada 100 habitantes), um carro tornou-se um símbolo do milagre económico italiano dos anos 60 e as vendas de automóveis não pararam de crescer desde então.
Agora, a compra de carros novos desceu para valores que não eram registados desde os anos de 1970.
“Qualquer pessoa que trabalhe no sector automóvel na Europa actualmente está a experimentar vários níveis de descontentamento. O mercado automóvel europeu está um desastre”, disse Sergio Marchionne, presidente da Fiat.

Grécia também pedala mais 
Mas não são só os italianos que estão a trocar as quatro pelas duas rodas. Em Agosto, a Reuters noticiou que os gregos também estão a adoptar a bicicleta como meio de transporte.
Vistas geralmente como sinal de pobreza ou consideradas arriscadas, as bicicletas estão a tornar-se numa alternativa para os gregos, a braços com uma grave crise económica e com elevadas taxas de desemprego.
O número de automóveis utilizados desceu 40% na Grécia. De acordo com a Reuters, esta situação está a traduzir-se numa oportunidade para alguns gregos, uma vez que a venda de bicicletas cresceu mais de 25% e a compra de equipamento de ciclismo – desde capacetes a joalheiras –, está a aumentar rapidamente.
Estima-se que pelo menos uma loja de bicicletas tenha aberto todos os meses em 2011, num forte contraste com o encerramento de muitas lojas em Atenas.
“Todos os bairros têm a sua loja de bicicletas, tal como têm a sua loja de kebabs”, disse à Reuters Giorgos Vogiatzis, um ex-ciclista da equipa nacional grega que desenha e constrói bicicletas feitas por medida.
Recentemente, Vogiatzis viu o negócio aumentar. De 40 bicicletas vendidas por ano, passou para 350.
A nova atracção dos gregos pelas bicicletas levou a que, em Atenas, se tenha começado a trabalhar num esquema de aluguer semelhante ao que existe noutras capitais europeias, como Paris.
A falta de infra-estruturas para o ciclismo na capital grega não impediu os gregos de pedalarem pela cidade, apesar dos engarrafamentos, das subidas e descidas em colinas íngremes e das estradas esburacadas".

Fonte: http://www.publico.pt/Sociedade/italianos-e-gregos-trocam-automoveis-por-bicicletas-1565827

Em 2012, vamos conhecer o vizinho, cuidar da horta e integrar uma associação

in Jornal Público, 22.01.2012, Por Maria João Lopes

"A crise obriga a mudar de vida. Mas que hábitos e comportamentos vamos alterar? O que pode surgir de novo na organização do quotidiano? Falámos com investigadores e registámos transformações que poderão ocorrer, para lá de comer mais em casa ou andar de autocarro.


Usar mais os transportes públicos ou levar comida para o trabalho são apenas alguns exemplos que identificamos de imediato como hábitos que se poderão acentuar em 2012. Mas o PÚBLICO foi ouvir, entre outros, historiadores, sociólogos e escritores sobre o tema e há respostas mais surpreendentes. Há quem acredite que o associativismo e as tertúlias regressarão; os adolescentes procurarão trabalho nas férias; os universitários tentarão arranjar part-time para pagar os cursos; os quintais terão mais hortas; e os vizinhos passarão a conhecer-se melhor.

Passar mais tempo em casa, conhecer melhor os vizinhos

À força de consumirmos menos e pouparmos mais, vamos reduzir as idas ao restaurante e a outros espaços de lazer, e estar mais tempo em casa. Uma das consequências será o aumento das refeições caseiras, até para levar também comida para o trabalho. O escritor Mário Zambujal acredita que as pessoas vão "visitar-se mais": "Vão juntar-se nas casas umas das outras para uma festinha."

Os encontros familiares serão mais frequentes e, em alguns casos, diferentes gerações poderão viver juntas: "É possível que deixe de ser viável que as pessoas da classe média tenham familiares em instituições privadas, que são caras. E que os familiares mais idosos fiquem mais tempo junto das famílias, que voltam a ser alargadas", avança o sociólogo e professor da Universidade de Coimbra, Elísio Estanque.

Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, também acredita que tal poderá acontecer, sobretudo "nas famílias com baixos recursos": "Haverá um retorno dos avós ao lar. Com o desemprego, as pensões dos idosos acabam por ajudar na gestão do orçamento." Estanque também sustenta que poderão surgir relações de proximidade entre vizinhos: "Se as pessoas passarem a estar mais na sua zona, têm mais probabilidade de se encontrarem com as que residem ao lado, e que muitas vezes nem sabem quem são". E, cada vez mais, a casa será o escritório: "Trabalhar em casa de pijama é algo que já está a acontecer", diz Zambujal.

Maior vivência comunitária, tertúlias e associativismo

Não será só a preferência pelos transportes públicos que poderá aumentar, mas também uma utilização partilhada do carro: "Os vizinhos que vivem na periferia irão organizar-se mais colectivamente [para se deslocarem]", diz Elísio Estanque.

Maria Filomena Mendes realça também o recurso à bicicleta ou a andar a pé, até porque muita gente abandonará os ginásios. Nas palavras de Pedro Moura Ferreira, sociólogo do Instituto de Ciências Sociais, "a grande mudança passará pela filosofia do menos em quase todas as esferas da nossa vida".

O presidente da Cáritas Diocesana do Porto, Barros Marques, acredita que estes comportamentos fomentarão "um estilo de vida mais comunitário e menos individualista: "Vamos criar laços de alguma economia doméstica, familiar, fazer reuniões com amigos", partilhando comida. "E regressarão as grandes tertúlias e o associativismo, como espaços de debate, de troca de impressões, de esclarecimento, nos quais as pessoas sintam que estão a remar juntas."

Trabalhar mais

Vamos trabalhar mais horas por menos dinheiro. Entre outras medidas, as férias serão mais curtas e os bancos de horas e gestão de pontes mais flexíveis. Mas as alterações no que respeita ao trabalho não se ficarão por aqui e há quem acredite que a crise fará com que os adolescentes procurem trabalhos nas férias e os universitários em regime part-time .

O humorista Nilton realça que sempre trabalhou nas férias quando era adolescente e admite o regresso dessa opção: "Esta transformação deve acontecer e tem um lado positivo, até na mudança de mentalidades. Os nossos universitários vão para a faculdade de carro, com telemóveis e computadores... E há outros países em que é vulgar os estudantes trabalharem em restaurantes, a servir às mesas e a lavar pratos, para pagar os estudos". Nilton acredita ainda que também trabalharemos mais em casa: "O desenrascar vai voltar a ser a alma portuguesa. Nos últimos anos, habituámo-nos a pagar a alguém para vir arranjar a máquina da roupa, para pintar as paredes de casa, para consertar a porta... Vamos voltar a fazer essas coisas todas", diz. E acrescenta: "Vamos fazer a limpeza da casa e deixar de ter empregadas domésticas, ou vamos ter menos horas. Vamos lavar nós o carro e não pô-lo a lavar."

Fazer férias em Portugal, trabalhar no estrangeiro

Elísio Estanque destaca que as saídas nos fins-de-semana prolongados podem diminuir, até porque haverá menos pontes, e que muitas pessoas abdiquem de férias no estrangeiro. Mário Zambujal acredita, porém, que "de um mal pode vir um bem": conhecer melhor o país, à força de fazer férias cá dentro.

"Às vezes, ouço turistas perguntarem a portugueses se conhecem as grutas de Mira de Aire e não conhecem. Conhecemos as praias do Algarve e pouco mais", afirma. O estrangeiro passará a ser, antes, sinónimo de emigração, sobretudo para os mais jovens: "Os jovens não se vão acomodar", diz Filomena Mendes, salientando que a mobilidade terá ainda como efeito o decréscimo na aquisição de casa própria. "Há uns anos, era compensador comprar casa; actualmente, não. Os jovens já têm essa consciência e querem arrendar. Porque isso dá mais liberdade para mudar."

Maior disponibilidade para a mudança

Dalila Pinto de Almeida, que tem participado em projectos de gestão da mudança em empresas multinacionais e é autora do livro Mudar de Vida , não tem dúvidas de que "a forma de encarar o emprego" vai mudar: "Não vamos poder continuar a encará-lo como algo certo, definitivo. Vamos ter de ver o emprego como trabalho", diz, salientando que as pessoas estarão também mais "disponíveis" para mudanças dentro da própria empresa.

"Não vamos poder ficar presos às funções que sempre tivemos, vamos ter de pegar em projectos diferentes." As alterações também se notarão na iniciativa das pessoas: "Vão criar alternativas, o seu próprio emprego e fazerem aquilo que sabem e gostam, mesmo ganhando menos e trabalhando mais."

Outro aspecto que antevê é "o surgimento de uma economia informal: sobretudo os desempregados aproveitarão as habilidades para, por exemplo, fazer carteiras em tecido para vender através do Facebook, na sua casa ou na de amigos". Aparecerão "negócios pequenos, de nicho": "Vai fomentar-se a criatividade", defende.

Elísio Estanque concorda: "Poderão surgir negócios como lojas de roupa em segunda mão. Em Inglaterra, há lojas dessas há muitos anos. É possível que volte a ser natural e que as pessoas cá aceitem essa reciclagem."

Mais debate político

A historiadora Irene Pimentel acredita que o agravamento das condições de vida poderá "dar mais força à discussão política". "É uma esperança que eu tenho, que vai aumentar o debate político". Outras expectativas passam por haver "mais responsabilidade nos actos políticos" e "mais estima pelo bem público". Irene Pimentel sublinha ainda que "vamos assistir à maior proletarização da classe média": "Pensávamos que havia uma seta para a frente e para cima. E a classe média está a ver que, afinal, o futuro não será melhor, mas pior", nota, antevendo tensões sociais.

Inês Pereira, investigadora nas áreas dos movimentos sociais e novas tecnologias da informação no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, acredita que este ano, e no que respeita à contestação, acentuar-se-á "o recurso à Internet, como forma de divulgar causas, como meio de convocar e concertar acções transnacionais, e como palco de uma "guerrilha informacional"".  
Mais humor e voluntariado

O humorista Nilton prevê um bom ano para os seus espectáculos: "As pessoas vão querer rir-se mais. O humor é uma arma contra a crise", diz, notando que é cada vez mais solicitado para ir a empresas, que procuram alguém que consiga motivar e levantar o "astral" dos funcionários. Já Irene Pimentel defende que, como ir ao teatro e ao cinema será cada vez mais caro, a tendência passará pela procura de conteúdos na Internet e espectáculos gratuitos. Filomena Mendes também prevê cortes na formação das crianças: "Algumas famílias vão privar os filhos da música, da natação, do ballet...", diz, acrescentando que os centros de explicações poderão perder clientes.

Em alguns casos, serão os próprios pais, se tiverem o tempo e os conhecimentos para tal, a apoiar os filhos nas tarefas escolares. Mas há quem anteveja outras soluções como o voluntariado: "Podemos ver professores reformados a dispor do tempo para cuidar de crianças num bairro, porque os pais deixaram de ter dinheiro para o ATL", defende Maria Filomena Mendes. Também o sociólogo Elísio Estanque considera que o "humanismo e a solidariedade podem ser mais visíveis".

Novo perfil de consumidor

O escritor Mário Zambujal considera que este ano será inevitável travar-se o consumismo das últimas décadas: "Há um excesso de ambições pequeninas, de mudar de telemóvel e fazer filas à porta das lojas só porque vem aí um que tem mais um botão. Reduzindo esse consumo, vamos ter mais tranquilidade mental, alguma acalmia nesta vertigem do ter que é infernal", sustenta. Prevê um perfil diferente de consumidor: "Entraremos numa fase em que temos de tra var esta sede desesperada de consumo, de querer ter tudo, sempre mais, e vamos chegar a um ponto de nos voltarmos para coisas que não estão à venda nos shoppings , como ver nascer o sol na Arrábida", brinca.

Também o humorista Nilton acredita que voltaremos "às coisas simples e a repensar o que é supérfluo". Mesmo em áreas como a alimentação, as pessoas tenderão a comprar de outra forma, não só pondo de parte produtos que não são absolutamente necessários, como preferindo os mais baratos: "A própria selecção dos alimentos vai mudar", diz Maria Filomena Mendes. Já Elísio Estanque acredita que as hortas vão regressar, mesmo nas cidades: "As pessoas com quintal, com pequenos talhões de terra, poderão usufruir dessa actividade não só para responder a necessidades materiais, mas também como forma lúdica de ocupação do tempo."para vender através do Facebook, na sua casa ou na de amigos". Aparecerão "negócios pequenos, de nicho": "Vai fomentar-se a criatividade", defende.

Elísio Estanque concorda: "Poderão surgir negócios como lojas de roupa em segunda mão. Em Inglaterra, há lojas dessas há muitos anos. É possível que volte a ser natural e que as pessoas cá aceitem essa reciclagem."

Mais debate político

A historiadora Irene Pimentel acredita que o agravamento das condições de vida poderá "dar mais força à discussão política". "É uma esperança que eu tenho, que vai aumentar o debate político". Outras expectativas passam por haver "mais responsabilidade nos actos políticos" e "mais estima pelo bem público". Irene Pimentel sublinha ainda que "vamos assistir à maior proletarização da classe média": "Pensávamos que havia uma seta para a frente e para cima. E a classe média está a ver que, afinal, o futuro não será melhor, mas pior", nota, antevendo tensões sociais.

Inês Pereira, investigadora nas áreas dos movimentos sociais e novas tecnologias da informação no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, acredita que este ano, e no que respeita à contestação, acentuar-se-á "o recurso à Internet, como forma de divulgar causas, como meio de convocar e concertar acções transnacionais, e como palco de uma "guerrilha informacional"".  
Mais humor e voluntariado

O humorista Nilton prevê um bom ano para os seus espectáculos: "As pessoas vão querer rir-se mais. O humor é uma arma contra a crise", diz, notando que é cada vez mais solicitado para ir a empresas, que procuram alguém que consiga motivar e levantar o "astral" dos funcionários. Já Irene Pimentel defende que, como ir ao teatro e ao cinema será cada vez mais caro, a tendência passará pela procura de conteúdos na Internet e espectáculos gratuitos. Filomena Mendes também prevê cortes na formação das crianças: "Algumas famílias vão privar os filhos da música, da natação, do ballet...", diz, acrescentando que os centros de explicações poderão perder clientes.

Em alguns casos, serão os próprios pais, se tiverem o tempo e os conhecimentos para tal, a apoiar os filhos nas tarefas escolares. Mas há quem anteveja outras soluções como o voluntariado: "Podemos ver professores reformados a dispor do tempo para cuidar de crianças num bairro, porque os pais deixaram de ter dinheiro para o ATL", defende Maria Filomena Mendes. Também o sociólogo Elísio Estanque considera que o "humanismo e a solidariedade podem ser mais visíveis".

Novo perfil de consumidor

O escritor Mário Zambujal considera que este ano será inevitável travar-se o consumismo das últimas décadas: "Há um excesso de ambições pequeninas, de mudar de telemóvel e fazer filas à porta das lojas só porque vem aí um que tem mais um botão. Reduzindo esse consumo, vamos ter mais tranquilidade mental, alguma acalmia nesta vertigem do ter que é infernal", sustenta. Prevê um perfil diferente de consumidor: "Entraremos numa fase em que temos de travar esta sede desesperada de consumo, de querer ter tudo, sempre mais, e vamos chegar a um ponto de nos voltarmos para coisas que não estão à venda nos shoppings , como ver nascer o sol na Arrábida", brinca.

Também o humorista Nilton acredita que voltaremos "às coisas simples e a repensar o que é supérfluo". Mesmo em áreas como a alimentação, as pessoas tenderão a comprar de outra forma, não só pondo de parte produtos que não são absolutamente necessários, como preferindo os mais baratos: "A própria selecção dos alimentos vai mudar", diz Maria Filomena Mendes. Já Elísio Estanque acredita que as hortas vão regressar, mesmo nas cidades: "As pessoas com quintal, com pequenos talhões de terra, poderão usufruir dessa actividade não só para responder a necessidades materiais, mas também como forma lúdica de ocupação do tempo.""

Fonte:
http://www.publico.pt/Sociedade/em-2012-vamos-conhecer-o-vizinho-cuidar-da-horta-e-integrar-uma-associacao-1530217?all=1
Imagem:
http://tlc.howstuffworks.com/home/community-garden.htm

Ponte de Lima aumenta para 81 o número de lotes para hortas urbanas

Foto: DR
Cada lote tem 40 metros quadrados de área de cultivo
in Jornal Público, 12.12.2011
Helena Geraldes


"O número de agricultores urbanos a plantar couves, cebolas, tomate, pepinos e outras variedades está a aumentar em Ponte de Lima, autarquia do distruto de Viana do Castelo que decidiu aumentar para 81 o número de lotes.
A partir deste mês, a câmara disponibiliza 27 novos lotes, cada um com 40 metros quadrados. Doze já estão ocupados, disse ao PÚBLICO a técnica superior de Ambiente da autarquia, Sandra Pereira. “A procura por estes espaços tem sido grande. Por isso decidimos passar dos 54 para os 81 lotes”, acrescentou.

Com base nas visitas às hortas urbanas, na Veiga de Crasto, às portas de Ponte de Lima, Sandra Pereira diz que aquilo que mais se cultiva é “o que as pessoas mais utilizam no dia-a-dia, como couves, cebolas, tomates, pepinos. Quem tem estes lotes tenta ter vários canteiros pequenos com uma grande variedade de hortícolas”. De acordo com a mesma responsável, até há quem se candidate a dois lotes, para ter uma área de cultivo de 80 metros quadrados.

O projecto das Hortas Urbanas em Ponte de Lima começou no final de 2009, com o objectivo de “melhorar a qualidade de vida, através da formação de espaços verdes dinâmicos e que promovam o contacto da população com a natureza”. Inicialmente havia 36 lotes, depois houve uma expansão para os 54 e agora passaram para 81.

Os únicos requisitos para estes agricultores urbanos, maioritariamente reformados e jovens casais, é que pertençam ao concelho de Ponte de Lima e que mantenham os terrenos cultivados.

Segundo Sandra Pereira, o município ainda tem mais espaços para fazer o projecto crescer. “Mas por enquanto vamos ver como corre com 81 lotes.”"

Fonte e imagem:

Hortelões notificados para abandonar terrenos em Sintra

in Jornal Público, 12.12.2011
Inês Boaventura

"Os hortelões que há vários anos cultivam as hortas junto ao Bairro 1º de Maio, no Monte Abraão, foram notificados pela Polícia Municipal de Sintra para abandonar aqueles terrenos camarários até ao fim do mês. A presidente da junta de freguesia diz que não compreende ou aceita esta decisão, à qual promete "bater o pé".
Uma das hortas é mantida por habitantes do bairro "há quase 30 anos" e a outra, segundo explica Ricardo Canelas, um dos mentores do projecto, por um grupo de jovens que ali se instalou em 2008. Numa carta aberta dirigida ao presidente da Câmara de Sintra, os hortelões lembram que "já por várias ocasiões as autoridades vieram destruir as hortas, em todas elas para deixar o terreno num estado abandonado e lamentável".

Desta vez a autarquia justificou o despejo com a informação que fez chegar aos hortelões, dizendo que aqueles terrenos se destinam à "construção de equipamentos sociais, culturais, desportivos, educativos ou de serviços públicos". A presidente da Junta de Freguesia de Monte Abraão, Fátima Campos, explica que os terrenos se destinam à nova sede da junta, a um centro comunitário e a um campo de desportos radicais, mas garante que "infelizmente não vai começar nada" num futuro próximo. Assim sendo a autarca não vê qualquer razão para se acabar com as hortas. "É preferível ter ali um terreno baldio com lixo e entulho de obras?", pergunta a eleita do PS.

Fátima Campos não percebe por que motivo a câmara não deixa as pessoas sossegadas, sublinhando que os espaços de cultivo são importantes para a subsistência de alguns dos habitantes do Bairro 1º de Maio. "Vou bater o pé e opor-me a isto. Já escrevi ao presidente e aos vereadores a apelar ao bom senso do executivo", acrescenta.

Na carta aberta dirigida ao presidente do município, Fernando Seara (PSD), os hortelões lamentam "a incoerência da câmara municipal", que "alega interessar-se pelas hortas urbanas e anuncia até estar a desenvolver um projecto de hortas comunitárias em zonas urbanas do concelho, e depois mostra desprezo total por um projecto já em curso".

Nessa missiva é também feito o pedido à autarquia para que no dia em que começarem as obras nos terrenos junto ao Bairro 1º de Maio seja disponibilizado a quem hoje cultiva a terra "um outro terreno devoluto, dos vários existentes nas imediações". Apesar do contacto, não foi possível obter esclarecimentos do gabinete de imprensa da câmara."

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Homenagem a Gonçalo Ribeiro Telles na Gulbenkian


in Jornal Público
07.12.2011 - 11:12 Por Lucinda Canelas

"Gulbenkian e Centro Nacional de Cultura celebraram ontem o paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. Colegas do ensino e da política, alunos e amigos quiseram honrar o mestre e, sobretudo, o homem.

Gonçalo Ribeiro Telles falou no fim, como compete ao homenageado. Com o auditório 2 da Gulbenkian cheio, com muitas pessoas de pé, o arquitecto paisagista a quem muitos chamam "mestre" admitiu o desconforto: "Nunca estive tão envergonhado para falar." Deram-lhe a palavra depois de um dia de testemunhos de alunos, discípulos, amigos e companheiros de vida política, uns monárquicos, como ele, outros não.

"Conhecemo-nos no combate à ditadura e é curioso que, sendo ele um monárquico e eu um republicano dos sete costados, a nossa empatia tenha sido imediata", lembrou Mário Soares já na recta final do encontro Gonçalo Ribeiro Telles - Um Homem de Serviço, que a Gulbenkian e o Centro Nacional de Cultura (CNC) organizaram ontem em Lisboa.

Pensador e político com um sentido cívico inultrapassável, defensor da liberdade e do direito à originalidade de ideias, disseram muitos dos oradores, Ribeiro Telles é, sobretudo, "uma pessoa extraordinária", sublinhou Soares: "Quando se fala do Gonçalo, há o problema dos afectos. Admiramo-lo pela sua verticalidade, pela sua obra, pela sua coragem, mas, mais do que isso, temos-lhe um afecto enorme pela pessoa que ele é."

Aos 89 anos, o político que foi membro da Aliança Democrática (AD), governante e deputado, fundador do Partido Popular Monárquico (PPM) e do Movimento Partido da Terra, ou o arquitecto paisagista a quem devemos as reservas agrícola e ecológica nacionais, os jardins da Gulbenkian (com António Viana Barreto) e o Amália Rodrigues, sente que tem ainda uma palavra a dizer. "Quero ser útil ao momento presente", dissera ao PÚBLICO antes da intervenção final.

E ser útil hoje é falar do despovoamento do mundo rural, da morte lenta das cidades, da "paisagem que é ainda um problema", porque os políticos, desinformados, continuam a dizer que querem defender os ecossistemas e a achar, ao mesmo tempo, que um eucaliptal é uma floresta: "Eles não sabem que nos eucaliptais não cantam os passarinhos e na floresta sim." O que é que lhes falta para saber olhar para o território? "Andar a pé, conhecer o país inteiro, as pessoas", responde este homem para quem "é mais fácil deixar marcas na paisagem do que nas pessoas".

Saber falar com as pessoas é uma das qualidades deste paisagista afável e atento, garantiu o comentador político Luís Coimbra. E, para o provar, contou uma história dos tempos da AD. Andavam na estrada em campanha eleitoral quando Ribeiro Telles desapareceu. Como todos estavam já à espera para entrar nos carros, Coimbra decidiu ir procurá-lo.

Mais bosques e mais hortas
"Chovia muito e eu fui dar com ele à porta de uma vacaria, a explicar aos agricultores que era melhor deixar os animais à solta no pasto do que alimentá-los com rações", lembrou Coimbra, com quem o arquitecto paisagista se cruzou pela primeira vez em meados dos anos 60. Para ele, Ribeiro Telles é um "político falhado" a quem reconhece "convicções firmes" e uma liberdade de pensamento inegociável. Porquê um político falhado? Coimbra esclarece: porque, apesar de ter razão, "as suas ideias para um desenvolvimento sustentado de Portugal ficaram para trás", por falta de inteligência de governos e governantes.

É precisamente a inteligência que falta a muitos que António Barreto, Guilherme d"Oliveira Martins e Eduardo Lourenço elogiaram neste homem de família, professor e cidadão que tem formado gerações através do exemplo e defendendo sempre "o ambiente como uma causa total", disse Augusto Ferreira do Amaral, dirigente do PPM.

Avesso aos jogos partidários, o paisagista tem sido essencialmente, segundo Freitas do Amaral, "um homem bom", que encarou a política como acto de cidadania e "a ecologia como a causa de uma democracia reformista". Se Portugal cumprisse a "excelente legislação" que Ribeiro Telles ajudou a fazer, defendeu o professor de Direito, "sem violações e sem excepções superiores à regra, seria incomparavelmente melhor".Teria, certamente, mais "lugares de paz e sossego, mais bosques e hortas", garantiu o sociólogo António Barreto, que foi seu colega de Governo, numa comunicação intensa, em que não se cansou de falar da independência de Ribeiro Telles e da sua paixão pela cidade. "Homem generoso e doce, mas firme", disse-o várias vezes Barreto, vê em cada espaço verde desperdiçado e em cada ribeira destruída uma derrota.

Voz activa na sociedade portuguesa há mais de 50 anos, Ribeiro Telles foi muitas vezes ignorado, acrescentou o sociólogo, mas o tempo deu-lhe razão. E teve um raro privilégio, concluiu Barreto: "Realizou um dos grandes sonhos dos homens cultos - fez jardins."

Jardins que são tentativas de paraíso, lembrou Eduardo Lourenço, defendendo que o paisagista é um "poeta da relação com a Terra", um "utopista novo": "Gonçalo Ribeiro Telles é uma mistura do ecologista-mor que foi Francisco de Assis com o botanista maravilhoso e romancista fantástico que foi Jean-Jacques Rousseau."

Para que não restassem dúvidas, o ensaísta fez questão de explorar este paraíso que o arquitecto foi trabalhando e falou da paisagem como se ela fosse a cara humana que a natureza nos reenvia. "Sempre tentámos criar com as nossas próprias mãos o paraíso", insistiu o ensaísta. Ribeiro Telles tentou tanto e tão bem que merece um título especial - Lourenço chamou-lhe "o jardineiro de Deus"."

Fonte e imagem:
http://www.publico.pt/Cultura/quando-um-homem-cria-paraisos-devemos-chamarlhe-jardineiro-de-deus-1524106

Deputados europeus querem velocidade máxima de 30 km/hora nas zonas residenciais

A proposta dos eurodeputados é baixar o limite de
velocidade nas zonas urbanas (Rui Gaudêncio)
in Jornal Público, 27.09.2011
Por José Bento Amaro

"Os deputados do Parlamento Europeu recomendaram, após aprovação em plenário, que a circulação rodoviária em zonas residenciais, em todo o espaço da União Europeia (UE) não possa exceder os 30 quilómetros por hora. (...)

Tendo em vista a redução para metade das mortes nas estradas europeias até 2020, o Parlamento Europeu entende que, nos próximos anos, é fundamental reduzir em 40% os feridos graves, proceder a uma diminuição de 60% das vítimas entre crianças até aos 14 anos e diminuir em 50% o número de peões e ciclistas mortos em acidentes rodoviários.

As estatísticas europeias referem que, em 2009, morreram nas estradas da UE mais de 35 mil pessoas (equivalente à queda de 250 aviões comerciais de média dimensão e cheios de passageiros). No mesmo período ficaram feridas 1,5 milhões de pessoas, muitas das quais sofreram incapacidades permanentes.

O valor dos acidentes de viação registados anualmente nas estradas da UE está estimado em cerca de 130.000 milhões de euros."

Fonte e imagem:

Torre de Moncorvo vai criar hortas para 150 famílias

Foto: Adriano Miranda/arquivo
A Câmara considera que estas hortas
ajudarão a renovar a paisagem agrícola urbana
in Jornal Público, 13.09.2011
Helena Geraldes 
 
"A Câmara Municipal de Torre de Moncorvo aprovou recentemente a proposta de criação de hortas comunitárias sustentáveis, revelou hoje a autarquia. A medida vai beneficiar 150 famílias.
As hortas serão criadas num terreno do município situado na Quinta da Fonte de Carvalho, com uma área de 10.457 metros quadrados, informa a autarquia em comunicado.

“A cada munícipe interessado é atribuído gratuitamente um talhão de 30 a 50 metros quadrados onde pode dedicar-se à agricultura e cultivar verduras e legumes, árvores de fruto, plantas medicinais, aromáticas e condimentares”, explica o município.

O objectivo é beneficiar as famílias residentes em Torre de Moncorvo, especialmente as mais desfavorecidas, que assim podem produzir alimentos, diminuindo gastos e promovendo hábitos alimentares saudáveis.

Mas não é só. A Câmara salienta também a “renovação da paisagem agrícola urbana” e a formação de crianças e jovens que assim podem desenvolver uma consciência ambiental."

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Semana da Mobilidade envolve 55 municípios de norte a sul do país

in Jornal Público 09.09.2011
Por Inês Boaventura

Mobilidade alternativa é o tema da Semana Europeia da Mobilidade 2011
Mobilidade alternativa é o tema da Semana Europeia da Mobilidade 2011 (Manuel Roberto/Arquivo)
"A Semana Europeia da Mobilidade, que decorre entre 16 e 22 de Setembro, vai mobilizar 55 municípios portugueses. Entre os países participantes, Espanha é o recordista, com 629 localidades inscritas.

“Mobilidade alternativa” é o tema da edição deste ano da Semana Europeia da Mobilidade, uma iniciativa que foi lançada em 2002 e que conta com o apoio político e financeiro da Comissão Europeia. O objectivo é sensibilizar os cidadãos para as vantagens de andarem a pé, de bicicleta e de transportes públicos. E também encorajar as cidades a promoverem esses modos de transportes e a investirem nas infra-estruturas necessárias.

Em Portugal, o número de participantes tem vindo a diminuir nos últimos anos. Em 2008 foram 67 os municípios envolvidos, em 2009 foram 62 (alguns deles com mais do que uma cidade ou vila) e em 2010 foram 66. Este ano, estão envolvidas nesta iniciativa 55 autarquias de norte a sul do país.

Dessas, 46 comprometem-se a executar, de forma permanente, pelo menos uma medida que contribua para que os cidadãos abdiquem dos seus automóveis em favor de meios de transporte mais amigos do ambiente. Há ainda 38 municípios que vão promover um dia sem carros, em uma ou mais zonas.

Almada é, como já vem sendo hábito, uma das autarquias participantes. Em 2010, este município arrecadou aliás o prémio que anualmente distingue a participação “mais efectiva e inovadora” na Semana Europeia da Mobilidade, deixando para trás as cidades de Múrcia (Espanha) e Riga (Letónia).
Lisboa também está inscrita e prevê concretizar duas medidas permanentes: instalar estacionamento para bicicletas e parques de estacionamento para motociclos. No fim-de-semana de 17 e 18 de Setembro, a Avenida Defensores de Chaves vai estar fechada ao trânsito.

Almeirim, Barcelos, Bragança, Caminha, Coimbra, Coruche, Évora, Lagos, Mealhada, Mirandela, Oliveira do Bairro, São João da Madeira, Serpa, Vila Nova de Gaia e Vila Real de Santo António são alguns dos municípios com iniciativas previstas para a semana de 16 a 22 de Setembro.

Em Espanha são 629 os participantes, na Áustria 249, na Hungria 98, em França 95 e na Polónia 87. Apesar de a iniciativa ser designada como Semana Europeia da Mobilidade, nela também participam países como Argentina, Brasil e Japão."

Fonte e imagem:

Há uma vasta minoria a pedalar por Lisboa

 in Jornal Público - Suplemento Fugas, por João Quarenta

"Colinas são só sete, mas dificuldades para pedalar por Lisboa parecem ser milhares, tal como sucede noutras cidades portuguesas de outros modos. Ou não? João Quarenta, ele próprio um aficionado da bicicleta, foi conversar com outros moradores de Lisboa habituados a pedalar pelas colinas e mostra aqui as conclusões e dicas. Para o dia-a-dia ou para um turismo diferente pela cidade.
Andar de bicicleta por Lisboa é percepcionado como algo perigoso ou só para “os mais corajosos”. Não é uma prática aceite e compreendida nem facilitada, como acontece já na grande maioria das cidades europeias. Mas a verdade é que se trata, em alguma parte, de um mito! A bicicleta é o meu meio de transporte há mais de oito anos e, acima de tudo, é uma das minhas grandes paixões. O vídeo pretende também levar a que mais gente se junte a esta "vasta minoria" que usa a bicicleta. Uma proposta para descobrir a cidade, o desporto e mobilidade de outra maneira.
Massa Crí­tica
Trata-se da designação de uma comunidade que passeia pela cidade em conjunto, utilizando "modos de transporte suave". Realiza-se na última sexta-feira de cada mês, por volta das 18h00, em várias cidades. No dia 24 de Junho decorre uma "bicicletada" em Aveiro, Braga, Coimbra, Guimarães, Lisboa, Porto, Sines e Seixal. Mais informações no site Massa Crítica.
Já a Cicloficina é um projecto dedicado a "ferramentas para a promoção do uso quotidiano da bicicleta"."

As Áfricas de Adjaye

in Jornal Público, 18.05.2011
Por Alexandra Prado Coelho
 
"Como é que um arquitecto olha para 52 cidades? O que procura nelas? David Adjaye explica o que viu em África
O arquitecto britânico David Adjaye nasceu em 1966 em Dar Es Salaam, na Tanzânia, numa família originária do Gana. Filho de um diplomata, viajou por muitas cidades de África quando era pequeno. Nos últimos dez anos voltou a percorrê-las - ao todo 52 capitais (só não incluiu Mogadíscio, na Somália, cidade demasiado marcada ainda pela guerra e a anarquia) -, fotografando a arquitectura e a estrutura, dos velhos "souks" aos edifícios modernistas, passando pela actual e frenética construção chinesa.
São milhares de fotografias, que podem ser vistas na exposição que inaugura dia 25 no Museu da Cidade, em Lisboa. Numa entrevista telefónica, Adjaye contou ao Ipsílon aonde é que esta busca o conduziu.
O que procurou em cada cidade que visitou em África?
Tento ter o ponto de vista de um visitante e não de alguém com um conhecimento profundo da cidade. Visito a cidade como qualquer outra pessoa, e o que faço geralmente é pedir a um taxista para me levar a todos os bairros, aos sítios públicos. Olho de forma mais específica para a arquitectura civil, a eclesiástica, a governamental, a institucional, e a comercial, que são importantes para ver quais são as agendas económicas do país e como é que  se reflectem na arquitectura.
Uso a mesma abordagem para as zonas residenciais, das classes ricas, da classe média (se houver classe média) e tento perceber como vivem os pobres, onde são os bairros da lata.
Como escolhe o que fotografa?
Faço-o da perspectiva do arquitecto. Nunca fotografo nada para o qual não seja atraído enquanto arquitecto. Tento ser objectivo e não fotografar apenas coisas que me atraiam a um nível emocional. Quero perceber as tipologias de cada sítio. Ao princípio, parece-nos que as cidades têm uma mistura enorme de estilos, mas no fundo são assim tantos. Há padrões que se repetem. Por isso, no início fotografo muito, mas a partir de certa altura começo a procurar categorias. Interessam-me muito as tipologias, de forma mas também de estilo: varandas, materiais, texturas.
São 52 cidades muito diferentes, mas haverá uma identidade africana que as ligue?
O que a exposição quer mostrar é que é um disparate pensar em África como um único sítio. Estamos a falar de um continente, com seis zonas geográficas muito diferentes, e são elas que fazem a identidade de África: o deserto, o Sahel, que é fronteira do deserto, o Magrebe, que são as áreas costeiras do Norte, a floresta que é a parte do coração tropical de África, a savana e pradaria, que são as regiões Este e Sul, e as montanhas e os planaltos. São seis identidades, povos e culturas muito diferentes - e paisagens arquitectónicas também.
Existe não apenas arquitectura diferente mas uma organização das cidades diferente?
Bem, julgo que quando olhamos para a arquitectura vernacular vemos diferentes tipos de organização da cidade. Mas se olharmos para a arquitectura da cidade, e estamos a falar de cidades que não têm mais de 50 anos, ela é essencialmente produto de um modernismo tardio. Nos casos em que as cidades são mais antigas, o colonialismo erradicou qualquer noção de uma cidade africana autêntica. Há um fragmento colonial, e depois há aquilo a que poderíamos chamar o fragmento internacional.
Não quero falar de África como o local de uma arquitectura vernacular verdadeira, mas como o lugar de modernidade radical, porque teve de lutar com todas estas questões, a última das quais foi a China, com a sua agenda de construção de infra-estruturas. Quando se vai para o campo, é muito diferente, aí vê-se arquitectura vernacular e a especificidade de pessoas e de tribos.
As cidades são casos específicos.
Sim, existe uma polaridade: a cidade é muito urbana, e o campo é muito rural. E é isso que é bom no continente, não existe nada entre uma coisa e outra, não há ainda subúrbios em África.
Como é que as pessoas lidam com a influência da China hoje?
Para os africanos, nos últimos 100 anos a modernidade não tem sido uma ficção ou discussão teórica, é uma realidade. Há já várias gerações que a modernidade é a forma de se avançar no mundo. Até a pessoa mais tradicional em África tem uma relação muito positiva com a modernização. Ao contrário do que aconteceu nos processos de industrialização da Europa e dos EUA, em África não houve uma migração do campo para a cidade e uma mudança drástica em duas gerações. As cidades africanas continuam a ter uma forte relação com o campo. Ao contrário do que acontece na Europa, há uma sensação de pertença a um sítio, e uma noção muito sofisticada de modernidade, que permite negociar o modernismo, o pós-modernismo e até o hiper-modernismo, este novo tipo de construção promovida pela China, em que as cidades estão a ser feitas muito depressa, com infra-estruturas e torres.
A modernidade que chegou nos anos 80 foi promovida pelas agências internacionais, pelo FMI, de uma forma um pouco dura e é uma coisa com a qual as pessoas não têm uma relação muito afectiva - é vista como uma arquitectura sem paixão, que surgiu apenas por necessidade. Os chineses, na sua versão de globalização, têm muito mais um lado de parceiros, chegam e querem construir infra-estruturas, mas estão também interessados em explorar os recursos em parcerias com o Governo. Estão aqui para construir o país, não para o ocupar.
Mas em termos do resultado é má arquitectura, ou não?
É do mesmo nível da arquitectura que é feita na China. De uma forma geral, falta em África arquitectura de grande qualidade. Mas eu não lhe chamaria boa ou má - é o que surge quando a economia está em ascensão e se começam a construir infra-estruturas rapidamente. Muitos destes edifícios não durarão muito. Se calhar nem lhe chamaria arquitectura. Será melhor chamar-lhe desenvolvimento.
Esse desenvolvimento não ameaça a relação de que falou, com o campo e as raízes rurais?
Não vejo isso. O que está a acontecer neste processo a que chamo hiper-modernização não é uma criação de subúrbios, é mais uma reconstrução da cidade. Essa relação entre o campo e a cidade foi já firmemente estabelecida - admito que daqui a 50 anos esta possa ser uma conversa muito diferente, mas julgo que estamos ainda muito longe disso. 
Quando há pouco falei numa identidade da cidade africana, estava a pensar nas muitas referências que faz nos textos da exposição ao espaço público, ao mercados, aos "souks"...
Ah, toda a ideia da vida pública em África é completamente diferente. Mesmo comparando com outros climas quentes da Ásia, da Índia, das Caraíbas. Toda a noção do comércio é muito granular, e funciona como um denominador comum entre as pessoas. O comércio acontece não num determinado bairro, mas cruzando fronteiras. Talvez isto tenha a ver com o facto de África ainda não ter desenvolvido uma classe média forte, porque é geralmente a classe média que se retira mais para os subúrbios ou para o interior da célula familiar. O que acontece hoje é que se vêem as pessoas a fazerem tudo na cidade a todo o momento. É fascinante.
E é um factor muito importante para um arquitecto que queira construir em África?
É muito fácil construir em África e ignorar as nuances. A grande questão neste momento não são os grandes temas mas as nuances, que têm um enorme significado para as identidades e a vida que ali se vive. Se se constrói em África e não se é sensível a estas coisas julgo que se perde muito, fica-se reduzido a ideias muito genéricas que são facilmente transformadas. O que acontece em África é que se se tem uma ideia mas não se compreende a sensibilidade do local, a arquitectura será recusada e reutilizada para o que deveria ser em primeiro lugar naquele contexto cultural. Não será usada como o arquitecto planeou. É isso que leva muitos arquitectos ocidentais a dizer 'não compreenderam o meu edifício', quando o que aconteceu foi que eles não compreenderam o contexto.
Os africanos têm uma relação mais descontraída com a arquitectura?
Têm uma relação menos rígida, não tão formal. Tem muito a ver com o clima. Os climas do Norte precisam de alguma formalidade, uma qualidade da forma, enquanto em África há uma relação muito mais horizontal, no sentido em que se tem de jogar com o horizonte, quebrando as fronteiras entre o interior e o exterior. Fazer edifícios como objectos cria esta espécie de troféus, ou formas, que exigem uma sensibilidade diferente que não é a africana.
Diz que não há classe média em África - as construções para habitação são para os muito ricos ou para os muitos pobres.
É o maior desafio para o continente.
Os chineses não estão a construir para a classe média?
Penso que a relação dos chineses com África não tem nada a ver com esse tipo de desenvolvimento, tem mais a ver com infra-estruturas, as estradas, os centros de conferências, os edifícios governamentais. Começa é a haver projectos de construtores africanos que estão a fazer dinheiro e procuram parceiros chineses porque são parcerias mais vantajosas do que com arquitectos europeus ou americanos.
Há espaço para os europeus?
Se olharmos para o PIB de África, esta é hoje uma das zonas com maior crescimento do mundo. Estamos num momento de passagem de uma necessidade de construção de infra-estruturas para a necessidade de arquitectura, de expressão cívica. E acho que os europeus têm alguma vantagem aí - aliás é por isso que os chineses já empregam vários arquitectos europeus.
Deixando agora de lado a questão de África, em que ponto está o seu projecto em Lisboa [a sede do centro cultural África.cont, entre as Janelas Verdes e a 24 de Julho]?
Ainda estamos à espera de conseguir os financiamentos necessários. Julgo que Portugal não está neste momento numa boa situação, mas [os responsáveis da Câmara Municipal de Lisboa] têm sido muito encorajadores - é um projecto para avançar, mas que de momento está em pausa.
A abordagem de Lisboa foi semelhante à que usou nas cidades africanas?
Tenho sempre o mesmo tipo de abordagem, que é a de tentar estar muito imerso e captar as coisas que não são evidentes. Vivi em Portugal [no início dos anos 90 trabalhou com Eduardo Souto de Moura, no Porto] e já conhecia bem Lisboa. Interessava-me essa parte antiga de Lisboa, o grão dessa zona e como ele é importante para a identidade da cidade, e queria fazer um edifício que reforçasse essas qualidades. Daí o projecto ser como um conjunto de fragmentos que compõem um espaço público e não uma grande forma única e unificadora."

Informação sobre a exposição:
http://lisboa-livre.blogspot.com/2011/05/24-de-maio-31-de-julho-2011-exposicao.html

Fonte e imagem:
http://ipsilon.publico.pt/artes/texto.aspx?id=285189